domingo, 14 de maio de 2017

Fios suplementares (ou complementares) em tear de pente liço

Salve, people! voltando após algum tempo para conversar sobre fios suplementares no tear de pente liço. Fácil e de efeito especial!

A idéia não é minha, mas sim de Jane Patrick e seu livro maravilhoso, "The Weaver´s Idea Book". Aliás, já deixo aqui o link deste livro, que pode ser adquirido pela Amazon Books do Brasil. Quando comprei, anos atrás, não era assim tão prático...

https://www.amazon.com.br/Weavers-Idea-Book-Creative-Heddle/dp/1596681756/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1494591415&sr=8-1&keywords=the+weaver%C2%B4s+idea+book

Um pouco de teoria:
 Fios complementares são aqueles que não farão parte da estrutura do tecido propriamente dita, mas sim adicionarão elementos ornamentais diferenciados. Assim, é possível complementar o tecido com fios no urdume, na trama ou ambos, como foi o caso aqui descrito, e de acordo com o objetivo, obter resultados bastante impressionantes.

Tais padronagens são produzidas normalmente em teares de quadros, onde um ou dois quadros, em geral, vão levantar os fios complementares, enquanto que os outros irão produzir ponto tela no tecido base. Em um tear de 4 quadros, por exemplo, dois quadros irão produzir ponto tela, enquanto que os outros dois irão receber os fios complementares - isso para fios complementares somente no urdume. Para combinar complementos no urdume e trama, é necessário um tear com mais quadros.


Fonte: BEST, 2005

Este gráfico representa uma padronagem bastante simples com fios complementares no urdume, para um tear de 4 quadros. Veja que os quadros 1 e 2 produzem o tecido base, enquanto que os quadros 3 e 4 recebem os fios complementares.

O desenho do livro de Jane tem uma representação gráfica, voltada para teares de quadros - neste caso, 5 quadros - e que é mostrada abaixo. Vamos falar um pouco sobre ela.


Olhando a liçagem (coluna horizontal, em cima), e lendo da direita para a esquerda, vemos que os quadros 1 e 2, assim como os quadros 3 e 4, fazem ponto tela. O quadro 5 é usado exclusivamente para os fios suplementares.

A pedalada é lida de cima para baixo (coluna vertical à direita), e mostra dois momentos diferentes, que vão produzir as flutuações verticais e horizontais. É importante frisar que durante esses dois blocos,  o tecido base em ponto tela deve ser produzido ininterruptamente, ou seja, se eu quiser a qualquer momento retirar essas flutuações, não haverão falhas na estrutura do tecido.


Deste modo, para a produção das flutuações verticais, enquanto o tecido base é produzido, deve-se iniciar acionando os pedais 1, 4 e 5, alternando com os pedais 2, 3 e 5. A alternância 1,4/2,3 produzirá o ponto tela, e o quadro 5 deve ser levantado todas as vezes para que os fios suplementares possam flutuar sobre o tecido base.

O segundo bloco, com flutuações horizontais, é produzido  acionando-se 4,5, o que produz a primeira flutuação horizontal, que passa também pela mesma cala anterior (4), e por cima dos fios do quadro 3. Acionando-se 2,3, ponto tela é produzido embaixo da flutuação, enquanto que também produz cruzamentos alternados com a passada anterior,  na região de encontro entre flutuações horizontais e verticais. Levantando o quadro 3, uma nova flutuação horizontal é produzida, enquanto que o fio passa na mesma cala do fio base anterior. Assim, na região central teremos um padrão 2/1 ( dois fios, um base e outro complementar) que passam por baixo de dois fios (base e complementar) e por cima de 1 (base). A próxima posição, 1,4,5 continua a produzir ponto tela no tecido base, e se alterna na região central com os fios anteriores. Continua-se, então, a produzir flutuações horizontais da mesma maneira já citada. O resultado deste bloco mostra tecido base formado abaixo das flutuações, enquanto que um "falso ponto tela" se desenha na região central. Parece intrincado, e parece também que os fios complementares estão totalmente inseridos na estrutura do tecido base, mas quando os retiramos, vemos que o ponto tela continua intacto:


Refiz o gráfico, agora sem os fios suplementares, mas mantive as cores e as posições onde passam. O software é incapaz de reproduzir com exatidão as flutuações, então interpreta como sendo parte integrante do desenho; assim, quando retiramos os fios suplementares, ficam esses "buracos" no tecido, que na realidade não existem. O mais importante é notar que, mesmo sem os fios, o ponto tela se desenha normalmente. Bacana, não é?



VAMOS AO QUE INTERESSA?

E agora, o mais legal ainda: não precisamos de um tear de 5 quadros para reproduzir este desenho de maneira bastante aproximada, mas somente um tear de pente liço e algumas navetes ou réguas!


No tear de pente liço, é preciso lançar mão de réguas ou navetes que possam erguer os fios desejados, e fazer as vezes dos quadros faltantes. Devemos nos lembrar que só há duas posições:  em cima (furos ), ou  embaixo (fendas), que corresponderiam a dois quadros. O uso das navetes auxiliares ajuda a controlar quais dos fios em cada posição serão erguidos durante o trabalho.





No livro de Jane, a ideia da padronagem apresentada foi usar fios no tecido base, e complementares, de tipos diferentes, e com encolhimento diferente.

Vejamos as figuras apresentadas por Jane:


Fonte: PATRICK, 2010.

À esquerda, o tecido quando saiu o tear, e à direita, o tecido lavado.

Para tecer a amostra, foram utilizados lã para o tecido base (em cinza), enquanto que os fios complementares em vermelho, azul e amarelo, são fios de linho. No caso aqui, a lã encolhe, enquanto que o linho, não. O resultado após a lavagem mostra os fios de linho "ondulados", porque a trama, embaixo, encolheu. Essa é uma das opções para o uso da complementação.




Agora, vamos ao meu experimento, um tecido para uma gola. Usei acrílico, tanto para o tecido base, quanto para a complementação, mas de espessuras diferentes:para a base, fio Desejo da Pingouin, um acrílico um pouco mais fino que os tradicionais fios de inverno, muito macio, na cor cinza, para acompanhar Jane (rs..), e usei fios finos de acrílico, Cristal, também da Pingouin, que são meus xodós neste inverno: bons, preço justo e muito resistentes para o urdume - recomendo a todos.

Muito bem. Uma vez urdido o tear com o fio base de sua escolha, tanto furos quanto fendas, é hora de urdir os fios suplementares. Assim, procurei usar a receita da Jane, adaptada à largura de minha peça, e produzi os blocos conforme se segue (instruções do livro). Importante dizer que são necessárias adaptações da sequência do gráfico para o tear de pente liço, para que a padronagem aproxime-se ao máximo, e assim, algumas passagens serão ligeiramente diferentes.

Material basiquinho:
1 novelo 100 g Desejo Pingouin na cor cinza - 40 cabos de aprox. 2,00m
4 cabos de fio Cristal laranja - 2,00 m
4 cabos de fio Cristal azul royal - 2.00m
Tear de pente liço 40 cm
1 pente 2:1
5 navetes - 2 auxiliares e 3 para a trama.


1.Iniciando com um furo, urdi 40 fios cinza  em um pente 2:1. Da direita para a esquerda, contei 9 fios, e no 10º (que deve estar em uma fenda), coloquei um fio suplementar azul, fazendo a mesma coisa por mais 3 fendas. Contei mais 9, e fiz a mesma coisa, só que com o fio laranja. Assim, há fendas com dois fios (suplementar e base). Sobram 8 fios finais. Amarrei os fios normalmente junto com todos os outros nos rolos traseiro e dianteiro, acertando a tensão. Preparei 3 navetes para a trama, uma com fio cinza, para o tecido base; uma com fio complementar laranja e outra com fio azul.

Aqui, uma pausa para uma explicação rápida sobre essa liçagem, que é feita da direita para a esquerda:




2. Abaixei o pente, expondo os fios das fendas. Agora, precisava colocar atrás do pente, as réguas ou navetes que movimentariam os fios. Posicionei uma navete, que chamei de A, por baixo baixo das regiões que continham fios base e complementares juntos, na mesma fenda, e por cima dos outros fios das fendas que só continham fios base. Essa navete vai fazer o papel dos quadros 4 e 5, e produzir  as flutuações horizontais.Posicionei outra navete (B), agora passando por baixo somente dos fios complementares, e por cima de todos os outros, e foi útil para produzir as flutuações verticais. As duas navetes podem ser mantidas atrás do pente, porque uma desliza por cima da outra.

3. De acordo com o livro de Jane, iniciei a peça fazendo 5 duítes de ponto tela, que devem terminar com o pente embaixo. Se for preciso, faça mais uma passada, ou uma a menos. Para tanto, simplesmente mantive as duas navetes auxiliares bem atrás do pente, para que não interferissem com o ponto tela, e executei da maneira usual. Neste momento pode-se observar que os fios complementares serão tecidos juntamente com os fios das fendas.

4. Feito isso, iniciei a padronagem com o bloco 1(flutuações verticais), que foi tecido inteiramente com o fio cinza.

a) Pente em cima  + navete B, que deve ser trazida para a frente até encostar no pente. Essa ação ergue os fios dos furos e mais os fios complementares
b) Pente embaixo e navete B para trás . Repetir a) alternado com b) por mais 7 vezes.
c) Termine com pente em cima e navete para trás

5. Para o Bloco 2 (flutuações horizontais), as outras navetes com fios complementares foram usadas, uma cor por vez. Iniciei com o fio azul.
a) Pente embaixo. Traga a navete A para a frente, e vire-a de lado, de modo a erguer os fios em cima dela, e abaixar os fios embaixo dela. Essa ação vai erguer fios das fendas tanto do tecido base quanto complementares. Passe o fio azul e bata.
b)Mantenha o pente embaixo, e a navete para trás, erguendo todos os fios das fendas. Passe o fio cinza e bata. Deve então haver dois fios (base e complementar) passando na mesma cala, passando por baixo de 2 fios (base e complementar) do urdume, na região central.
c) Pente em cima, navete para trás - erguendo os fios dos furos - fio cinza.
d) Repita as ações a); b); c); e d); mais 3 vezes.
e) Termine com pente embaixo e navete para trás - fio cinza.

A partir daí, fui repetindo a sequência bloco 1 / bloco 2, sempre alternando entre azul e laranja.

Para complementar, deixo aqui os links dos videos que fiz, bem simples, mas que, acho, vão auxiliar a todos que quiserem se aventurar...
https://youtu.be/L3ajnWr_dkw

https://youtu.be/HDToRla3SDo

https://youtu.be/MtwZ8cCogTQ

Fica aqui a dica de hoje!

Um abraço e até a próxima!

3 comentários:

  1. Amiga, vc arrasa sempre! Vou tentar fazer,será que consigo? Bjs.

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    1. Lógico que consegue! tem alguma coisa que vc não consiga, Toninha?

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  2. Quero agradecer suas postagens, consegui progresso consideravel atraves de suas aulas, tanto por aqui quanto pelo youtube. Atraves desta postagem elaborei uma almofada e atraves da aula de honey comb fiz dois caminhos de mesa....

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