domingo, 21 de maio de 2017

Com a palavra, o urdume

Hoje quem posta é meu atual urdume, que em um prazo de 2 ou 3 dias, já recebeu, e perdeu, 3 das 4 das idéias que tive para a trama. Isto já me ocorreu várias vezes ao longo destes anos todos, mas hoje, quando finalmente achei a trama vencedora, uma história sobre a "saga" começou a surgir na mente, e diante de uma tarde chuvosa e um fim de gripe, achei que seria engraçado imaginar o que diria o urdume se pudesse falar...

"Olá, eu sou o urdume.
Bem, descrevendo-me de maneira mais acurada, sou um fio de acrílico, de aproximadamente 200 TEX (o que seria considerado "fino" na espessura), de cor bege, quase que um café-com-leite, da marca Pingouin Lansul. Tenho certo orgulho de minha origem, uma vez que faço parte de um grupo de fios muito tradicionais, e que são normalmente considerados muito bons e resistentes por quem os usa, sobretudo no tricô e crochê.

Eu e meus colegas "de lote" ficamos animados quando fomos finalmente entregues em nosso endereço inicial, e aguardamos ansiosos nosso destino. Ficamos a imaginar de qual peça de vestuário iríamos fazer parte: uma blusa, um cachecol, uma manta? não importa, pois o essencial é servir ao propósito, de maneira prática e embelezadora.

Cada um de nós seguiu para um lugar diferente, e eu acabei por ser enviado à esta casa, juntamente com outros colegas de cores diferentes, e lotes diferentes. Não os conhecia muito bem, mas acabamos por interagir, enquanto a caixa onde estávamos guardados mantinha-se fechada, o que se estendeu por alguns dias. Durante este período, entre sussurros, tentávamos entender onde estávamos, e o que faríamos ali. Sem haver na caixa qualquer chance de "espiar" o exterior, limitávamo-nos a especular, e vez ou outra escutávamos passos, ora humanos, ora uns diferentes, que, depois aprendi, eram do animal da casa, um cão, o que respondeu nossas dúvidas a respeito das "fungadas" ocasionais na caixa onde estávamos. Enfim, chegou o dia de nossa "liberdade", e pudemos então dar uma boa olhada ao redor.

Era um ateliê, com vários equipamentos diferentes, que não conhecia. Logo, identificamos outros colegas, e os cumprimentamos, assim que nossa dona, a senhora, nos posicionou lado a lado com eles. Olhei ao redor, e perguntei a meu vizinho: " o que são estas coisas? e onde estão as agulhas de tricô?", e ele me respondeu, revirando os olhos: "não há agulhas deste tipo aqui. Este é um ateliê de tecelagem. E estas coisas são teares, bro."

Teares. Sim, já tinha ouvido falar, mas não sabia onde, talvez lá na fábrica onde nasci. Nunca achei que um dia teria a oportunidade de conhecer um de perto. Bem, este dia chegou, e em breve eu iria participar deste processo.

Vi que a senhora preparou um retângulo cheio de pinos próximo à janela. Então, com cuidado, retirou o plástico que me envolvia e me colocou no chão. Puxou o início de meu fio e começou a passar por aqueles pinos, indo e vindo. Vi parte de mim sendo distribuída com cuidado, mas não entendia muito bem. De onde estava, ouvi os outros comentando: "ele será urdume". E minha confusão aumentou ainda mais.

Lá de baixo, gritei: "mas o que é isso?". De cima, alguns riam,  outros observavam com interesse o desenrolar de meu cone. Aquele meu vizinho respirou profundamente antes de responder, como que buscando paciência: "cara, o urdume é a base da tecelagem. Você ficará distribuído em posição vertical no tear, e vai receber o fio da trama, entrelaçado a você, em posição horizontal. Tipo assim, se fosse pintura, você seria a tela, e o fio da trama seria a tinta, tá ligado? o conjunto final é a trama ou tecido."

Hum. Base da tecelagem, muito interessante. Então, eu seria a base, o que deve ser importante nesse negócio. Mas, eu ainda tinha uma pergunta final: " você falou em fio da trama. Eu posso ser isso também?"

"Pode, bro. Mas não acho que vai ser o caso. Pelo o que tenho observado nos últimos dias, a senhora não costuma usar o mesmo fio para urdume e trama. Acho que é o estilo dela, sei lá."

Sem mais perguntas, aguardei o término da ação que a senhora estava conduzindo, e aprendi que ela estava me "urdindo", ou seja, organizando-me em pedaços uniformes e em uma determinada ordem. Simplesmente relaxei e aguardei a próxima etapa.

Quando terminou, devagar me retirou daqueles pinos, e cortou as pontas. Agora, parte de mim era um conjunto de fios do mesmo tamanho. Minha outra parte manteve-se no cone, que agora ocupava lugar com os outros. Meu  novo vizinho perguntou-me: "e então, está animado?". E eu, olhando minha outra parte pendurada, aguardando, respondi: "ainda não sei. Mas acho que vou ficar."

Este vizinho então comentou: "olhe, já servi como urdume, e lhe digo: é muito prazeroso...quando o fio da trama combina com você. O conjunto tem que "casar", entende? do contrário, o resultado final pode ser desapontador. Mas não se preocupe, a senhora costuma perceber isso logo no início do trabalho."

Vi que a senhora retirou o retângulo, que também aprendi ser uma urdideira, e em seu lugar colocou um equipamento pequeno, que já tinha aprendido ser um tear. Vi que colocou uma espécie de tábua fina com furos e fendas, e que aprendi ser o pente. A senhora, então, pegou a parte de mim como urdume, e foi colocando em cada furo e fenda, até que eu estivesse todo arrumado nos lugares devidos. Depois, vi que amarrou as pontas na parte de trás do tear, e foi enrolando. De vez em quando, ela parava para puxar as pontas soltas, como que apertando o rolo que se formava, e então continuava. Quando ficou satisfeita, amarrou as pontas na frente em um rolo, que a vi ajustar até que os fios estivessem bem esticados.

Eu, agora urdume, estava "tenso", em todos os sentidos: sentia-me esticado  fisicamente, e estava ansioso por aguardar o outro fio, aquele "da trama". Se tudo desse certo, seríamos inseparáveis até o fim. Mas se não desse...alguém teria que sair de cena, e esperava que não fosse eu. Novo no trabalho, não queria esta mancha na minha carreira - ser o fio que "não serviu". É bobagem, eu sei, mas assim mesmo, queria que desse certo. Já tinha a informação de que, em geral, a senhora costuma trocar o fio da trama, até que este se ajuste ao urdume, mas também corria à boca pequena sobre um episódio onde a senhora, tomada de certa fúria ou frustração, cortou e jogou no lixo mais da metade do urdume, porque este não aguentava a tensão e arrebentava-se facilmente. O resto que sobrou foi retirado do tear e guardado, em um local até o momento desconhecido de todos. Dizem que ela se arrependeu amargamente, pois nem todos os fios são feitos para urdume, mas o que fazer? todos cometem erros. Aparentemente, não voltou a acontecer.

"E que assim se mantenha", pensei comigo. Não queria ser picotado, jogado ao lixo ou guardado em um canto, esquecido. Entre nós, fios,  é o equivalente à "vergonha alheia" dos humanos - ainda que não se tenha culpa.

A senhora, então, começou a tramar. O fio da trama era largo, de cores chamativas, bem bonito mesmo. Eu o cumprimentei quando chegou e começou a se entremear entre os cabos (também aprendi esse termo, que representam as partes de mim urdidas e organizadas no pente). De cara, vi que era meio arrogante, do tipo "mas o que estou fazendo aqui?", e me cumprimentou rapidamente, já emendando: "apertado aqui, hein? a "mocinha" ali escolheu mal o pente...ou o urdume", olhando -me de alto a baixo. Antes que eu pudesse ter a chance de responder, a senhora desceu o pente, nos compactando suavemente. Em seus olhos, pude ler a dúvida, mas ela ainda insistiu em mais algumas passadas. A cada uma delas, o fio da trama, aquele insuportável, dizia alguma coisa, do tipo: "querida, preciso de mais espaço aqui", ou "essa cor de urdume está me matando". Nem preciso dizer que estava no meu limite.

Por sorte, a senhora parou tudo. Fiquei olhando, totalmente nervoso, esperando seu próximo passo. O fio da trama somente me olhou e deu um meio sorriso cínico: "é, meu chapa, acho que é o fim da linha...para você. Bem disse que não combinamos."

A senhora, então, começou a desmanchar o que tinha feito, que era pouco. Rapidamente, era só eu naquele tear. Vi quando o arrogante foi enrolado de volta em seu novelo, e também o ouvi falar: "finalmente! mereço um urdume à minha altura. Retire aquilo do tear e me dê algo que valha a pena!" Pouco depois, o novelo com o falastrão foi colocado de volta ao pacote de onde saiu. "Mas, espere aí; por que está me guardando? troque este urdume e você verá como será perfeito! espere aí! não ainda!". Tarde demais, já tinha voltado para a prateleira.

Respirei aliviado, sem deixar de rir internamente daquele infeliz. Eu continuava no jogo.

O candidato número 2 era novo, e bem simpático. Colorido e grosso, parecia uma boa escolha...só que não. Ao chegar, já me cumprimentou alegremente: "e aí, colega? como estão as coisas?" e então respondi: " Indo. Você é o segundo a tentar esse urdume".

Batida do pente, e segunda passada. Vi a feição da senhora, e já entendi. "Mais um fora...". Mas não era eu.

O candidato deu de ombros, e me desejou boa sorte. "Espero que você encontre seu par logo", disse, e então voltou ao seu novelo. Cara bacana, este. Parece que chegou estes dias como uma novidade de sua fábrica, que não é a minha. Tomara que seja usado em breve.

Candidato nº 3. Cor lisa, bem próxima à minha, vinha com um colega igual, em um tom mais escuro. Contido, foi bastante educado. Cumprimentou-me formalmente, e vi que havia ali alguma possibilidade, assim pelo menos eu achava. A senhora, então, começou a tramar com o outro fio, e vi os dois começarem a conversar. " Acha que isso vai dar certo? não vejo muito destaque entre nós e este urdume." e virou-se para mim, rapidamente: "sem querer ofender. Simplesmente sua cor é muito próxima da nossa." Batida do pente, e eu então fiquei estudando as feições da senhora, que continuava o trabalho. Não conseguia identificar seu sentimento. De repente ela parou, e se afastou do tear.

Ficamos lá, eu e estes fios, e então puxei assunto: " o que acham que aconteceu?".

"Provavelmente nada", disse um deles. "Ela deve ter dado uma pausa".

E assim, passamos mais de um dia. Vez ou outra, ela parava para dar uma olhada, e eu só ficava observando. O trabalho não avançava, o que começou a me preocupar. Estávamos na terceira tentativa, então a probabilidade de eu ser o próximo a sair começava a aumentar. Fiquei meio paranóico, já imaginando a cara dos colegas...olhava para a outra parte de mim no cone, e pensava: "não tenho como voltar para lá". Imaginei os piores cenários.

E mais um dia se passou, sem que a senhora tivesse aparecido ali uma vez sequer. Em um determinado momento, ouvi ao longe  alguém dizer que ela estava adoentada, e fiquei sem saber o que esperar. Alguns cones tentavam me animar, dizendo que em breve ela voltaria e terminaria o trabalho, e outros, céticos, diziam que era melhor eu me preparar. Os fios da trama, indiferentes, limitavam-se a conversar entre si.

No dia seguinte, vi a senhora se aproximando do tear. Pensei: "é agora", e fiquei aguardando seus movimentos. Vi que pegou uma tesourinha e cortou os fios da trama, onde tinha parado. Prendi a respiração e olhei para eles, que, ainda indiferentes, esperavam pelo desenlace. Vi, então, que ela começou a cortar entre os meus cabos, soltando os fios das tramas, que agora se despediam. " Estes pedaços vão para o lixo", diziam. "Ainda bem que há mais de nós nestes novelos. É pena, mas acho que ficaremos melhor em outro urdume. Boa sorte a você". A cada corte, sentia a tesoura perto, que trabalhava rápido. E mais uma vez, lá estava eu, sozinho. Qual era o meu problema?

Vi que a senhora me olhava, e eu sentia que talvez ela estivesse buscando outras finalidades para mim. "Vergonha alheia", pensei eu. "Ninguém merece".

De repente, eu a vi direcionar o olhar para o chão. Ela se abaixou, e quando voltou, trouxe com ela um novo novelo, de cores em degradê, muito bonito. Percebi que analisava o fio, comparava comigo, e resolveu tentar novamente. Após algumas passadas,  seu olhar se iluminou. Ela havia completado o par desejado. Percebi uma certa ponta de inveja, misturada com incredulidade, por parte daqueles que não acreditavam que eu conseguiria ser urdume de algum fio neste ateliê. Ao chegar, o novo fio da trama estava tímido, e humildemente me cumprimentou: "olá". Ele continuou:"sei que houve alguma dificuldade com a sua integração a outros fios, e eu gostaria de dizer que lamento muito por isso", e sorrindo, completou: "mas de algum modo, sinto que estaremos ligados por muito tempo".

Também sorri, diante da confiança deste companheiro. Minutos depois, vi que ele estava totalmente certo.

E assim, cumprindo o que foi a mim destinado, finalmente me senti em casa."









Um abraço, e até a próxima aventura!








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