domingo, 12 de junho de 2016

Ponto sarja: das particularidades da padronagem e das observações (muito bem colocadas) de um sábio

Dia destes,  comecei um cachecol para meu filho. O que ele queria era simples: um cachecol preto.
Fácil, mesmo. Mas, dentro de mim, havia aquele certo desconforto, pois tenho um pouco de resistência à peças monocromáticas, aquela mania de achar que se jogar uma corzinha diferente, vai dar um visual novo, etc, e com essa idéia, interpelei: "mas, você quer preto, preto? que tal um fundo preto, com um pouquinho de cinza, uns toques de vermelho..." enfim, cheia de sugestões. Meu filho, pragmático, só me olhou e respondeu: "só preto, mãe. Preto."

Ok. Preto será. E, suspirando, tratei de preparar o tear, já imaginando o tédio, fora a dificuldade em enxergar (se você erra, fica difícil ver com um fio tão fininho quanto o que usei). Ah sim, esqueci de dizer que ele queria um cachecol "clássico", nada dos grossos, mas fino, elegante, assim como ele, mesmo...rs... E aí, fui tratar de achar aqueles acrílicos finos, para máquina de tricô, sabem? sendo alérgico, são poucas as opções, e lã, nem pensar. Resolvida essa parte, parei de enrolar e fui pensar o que fazer. E então, pensei que poderia, ao menos, tentar uma padronagem com um toque diferente do ponto tela, e resolvi partir para o ponto sarja, famoso pelas calças "jeans", casacos, cachecóis em xadrez escocês. O ponto é fácil, tão fácil quanto um mantra, porque você liça 4,3,2,1, do começo ao fim, e vai pedalar 12, 23, 34, 41, ou 41, 34, 23, 12, até o fim, e o desenho, uma escadinha, gera um relevo bastante agradável. Ou seja, após a décima duíte, é como uma doce canção na sua cabeça, com fundo do barulhinho tipíco dos pedais.
Comecei a tecer, e vi que, de fato, estava ficando muito bom, um clássico, realmente. O ponto sarja fazia toda a diferença, sem precisar de outras cores:



O padrão "escadinha", tão típico da sarja, muda toda a paisagem, e o "preto sobre preto" fica diferenciado. Notem que a escadinha está subindo para a direita, formando um padrão Z ( só chamado assim por causa do "corpinho" da letra). Do mesmo modo, se  a escadinha subisse para a esquerda, seria um padrão S (mesmo motivo do Z). S ou Z se estabelecem quando mudamos a pedalada: se vc pedala 41, 34, 23, 12, vc terá um padrão S, e se pedala 12, 23, 34, 14, o padrão será Z. Uma tecnicalidade que vai dar na mesma, porque S e Z são imagens espelhadas do mesmo desenho. O que ocorre na frente do trabalho terá sua imagem espelhada no avesso.

No entanto, citei aqui porque se por acaso um gráfico for seguido para a execução da sarja, é possível notar que o mesmo representa o contrário do que falei:

 

Esquerda: padrão S; direita: padrão Z


Em um gráfico, a leitura usual é que seja da direita para a esquerda, e de cima para baixo. Assim, o padrão S teria um sequencia de pedaladas 12, 23, 34, 41 - o que é correto, se fosse tecido de cima para baixo. Entretanto, nós tecemos de baixo para cima, o que nos leva a um desenho Z (direita), e não S; obviamente, o contrário também vale. Assim, se você faz questão de desvios à esquerda ou à direita, deve prestar atenção a este detalhe, uma entre algumas exceções em um mundo de gráficos existentes - uma particularidade desta padronagem. É exatamente o que está ocorrendo no cachecol que estou tecendo. Minha pedalada é 12, 23, 34, 14, mas meu desenho é de padrão Z. Para mim, está perfeito, mas se eu realmente fizesse questão de um padrão S na frente do trabalho, eu teria que pedalar 14, 23, 34, 12. Esta questão também não tem importãncia, porque seria só virar o trabalho ao terminar, que lá estaria o padrão que desejo, e pronto, resolvido o problema. Chegamos à conclusão que tanto faz, mas achei interessante pontuar isso, porque posto gráficos a todo instante, e alguém  menos experiente poderia achar que está fazendo algo de errado, quando não está. Para resumir a ópera: se você quiser ver S, tem que pedalar como Z, e vice-versa, ou então, termine o trabalho e veja o que procura no avesso - de qualquer jeito, vai encontrar o que quer.




E por falar em gráficos, cheguei a postar em minha página no Facebook um gráfico de ponto sarja, e no enunciado falei que era para teares tipo "Jack type" (quadros que sobem), porque os teares mineiros tem quadros que descem, e dependendo do desenho, isso pode ser um problema - ao seguir um gráfico feito originalmente para teares Jack Type, o avesso acaba aparecendo na frente, e vice-versa. Como já falado, isso não ocorre para o ponto sarja - o desenho é o mesmo, somente o desvio será para um lado e para o outro - ou seja , S na frente, Z atrás; Z na frente, S atrás - Tudo a mesma coisa!













à esquerda: twill (Jack Type - quadros que sobem); á direita: contrabalanço (quadros que descem)



Prof. Rodrigo Monteiro (o Tecelão) rapidamente fez esta observação, e eu então respondi que, realmente, os desenhos seriam iguais, mas que não custava avisar. Assertivo, me mandou uma outra mensagem:  didaticamente, era mais importante falar sobre a exceção (avesso é igual ao direito). De maneira gentil e indireta, sugeriu que, se era para ensinar, que fosse direito (rs), começando por corrigir a redundância do post, e explicando o gráfico - o que está totalmente correto. Assim, tento me redimir aqui, procurando obedecer ao professor - pois é assim que deve ser. Espero ter sido bem-sucedida!

Havemos de ser profundamente gratos por aqueles que se dispõem a nos ensinar, com cuidado e sem arrogância. Ainda chego lá!

"Touché, Prof. Rodrigo. Obrigada por mais esta lição".


Até a próxima!


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