quarta-feira, 22 de junho de 2016

Das novas parcerias e seus felizes resultados

Soube por intermédio da Toninha Miranda, amiga e superparceira de tear e afins, que ela tinha firmado, de maneira bastante tranquila, uma parceria com uma empresa de linhas - Rayza, que fabrica fios de polipropileno - que imitam seda, e podem ser usados em trabalhos diversos, desde vestuário até tapetes. Aliás, vale muito a pena visitar o site da empresa para ver os modelos de tapetes à mostra.

Despertou-me interesse imediato, por algumas razões: primeiro, fora a empresa Linhas Círculo, NENHUMA outra fabricante de fios se interessou em fazer algum tipo de parceria comigo, e muito embora já tenho trabalhos de sobra, e já tenha discutido esse assunto à exaustão, a resistência à tecelagem existe, e como já disse em outro post, abro meu caminho na base da picareta. Assim, quando surgem oportunidades de parcerias novas, já quero tentar também, mas com aquele pé atrás - provavelmente não vai dar certo...

Já pronta para o "não", escrevi às linhas Rayza, e mandei fotos de alguns trabalhos que já tinha executado com a mesma - pois já conheço o material há muito tempo, desde meu início na tecelagem, mas sempre usando o fio misturado a outros. E fiquei esperando uma resposta que não sabia se ia chegar, o que é meio padrão de algumas fabricantes - simplesmente não dão resposta alguma.

Para minha grata surpresa, a resposta veio no dia seguinte, plena de simpatia - claro que poderíamos formar uma parceria; eu podia, inclusive, escolher alguns fios de meu interesse (!!!!!!!!!!!), que me mandariam sem custo.

Ah, essa parte realmente é nova para mim. Sabem quando alguma empresa me ofereceu fios sem custo para confecção de peças teste? NUNCA. Realmente não preciso disto, posso dizer, mas tais ofertas nos fazem sentir valorizados, sabem, "pessoal de marketing destas empresas"????

Então, só posso (finalmente) iniciar este post agradecendo às Linhas Rayza pela oferta, inclusive tão generosa - 5 cones dos fios que desejasse, os quais recebi rapidamente, diga-se de passagem. Destes, usei 4 para esta peça:





Com os cones na mão, o que fazer? optei pelo tear de pente liço, e por uma peça de dimensões de um caminho de mesa. Iria, pela primeira vez, trabalhar somente com os fios de polipropileno, e submeter a peça à vários testes, que incluiriam inclusive passagem pela máquina de lavar.

Aproveitando o urdume, resolvi aplicar uma técnica bastante simples, a Renda Leno, que entremeada de regiões de ponto tela, me dariam uma boa noção sobre a resposta do fio em diferentes padronagens. Usei o pente 4:1, para fechar bem o ponto.




Aproveitei o momento e gravei alguns vídeos da execução da renda Leno. Estão disponíveis em meu canal no YouTube, e assim convido todo mundo para assistir e aprender comigo!

https://youtu.be/1mD5ZHk6JhE

https://youtu.be/e7TIABSb9Es

Retirado o trabalho do tear, passei então à lavagem, etapa primordial. Ao lavar, os fios se acomodaram  de maneira muito interessante. Fiquei então esperando a secagem, que já amaciava a peça. E aí, como o tempo não estava ajudando muito, resolvi fazer ainda mais um teste: o da secadora. Procuro evitar tal procedimento, mas como a peça estava levemente úmida,  achei que, bem, uns 20 minutos não fariam mal, certo?

Ao retirar, percebi que a secagem na máquina havia aberto um pouco os fios, acentuando as torções da renda, e encolhendo um pouco a peça. Essa abertura dos fios deixou a peça ainda mais macia. Tudo bem que as franjas viraram uma bagunça, embaraçadas...rs...mas nada como uma boa tesoura para resolver. O resultado final foi bastante interessante, e aqui está a peça pronta para usar:





E assim terminou este teste. Estou plenamente satisfeita, e cheia de idéias para outras peças. Tenho fios de sobra, e então esperem cenas dos próximos capítulos..

Até a próxima!

domingo, 12 de junho de 2016

Ponto sarja: das particularidades da padronagem e das observações (muito bem colocadas) de um sábio

Dia destes,  comecei um cachecol para meu filho. O que ele queria era simples: um cachecol preto.
Fácil, mesmo. Mas, dentro de mim, havia aquele certo desconforto, pois tenho um pouco de resistência à peças monocromáticas, aquela mania de achar que se jogar uma corzinha diferente, vai dar um visual novo, etc, e com essa idéia, interpelei: "mas, você quer preto, preto? que tal um fundo preto, com um pouquinho de cinza, uns toques de vermelho..." enfim, cheia de sugestões. Meu filho, pragmático, só me olhou e respondeu: "só preto, mãe. Preto."

Ok. Preto será. E, suspirando, tratei de preparar o tear, já imaginando o tédio, fora a dificuldade em enxergar (se você erra, fica difícil ver com um fio tão fininho quanto o que usei). Ah sim, esqueci de dizer que ele queria um cachecol "clássico", nada dos grossos, mas fino, elegante, assim como ele, mesmo...rs... E aí, fui tratar de achar aqueles acrílicos finos, para máquina de tricô, sabem? sendo alérgico, são poucas as opções, e lã, nem pensar. Resolvida essa parte, parei de enrolar e fui pensar o que fazer. E então, pensei que poderia, ao menos, tentar uma padronagem com um toque diferente do ponto tela, e resolvi partir para o ponto sarja, famoso pelas calças "jeans", casacos, cachecóis em xadrez escocês. O ponto é fácil, tão fácil quanto um mantra, porque você liça 4,3,2,1, do começo ao fim, e vai pedalar 12, 23, 34, 41, ou 41, 34, 23, 12, até o fim, e o desenho, uma escadinha, gera um relevo bastante agradável. Ou seja, após a décima duíte, é como uma doce canção na sua cabeça, com fundo do barulhinho tipíco dos pedais.
Comecei a tecer, e vi que, de fato, estava ficando muito bom, um clássico, realmente. O ponto sarja fazia toda a diferença, sem precisar de outras cores:



O padrão "escadinha", tão típico da sarja, muda toda a paisagem, e o "preto sobre preto" fica diferenciado. Notem que a escadinha está subindo para a direita, formando um padrão Z ( só chamado assim por causa do "corpinho" da letra). Do mesmo modo, se  a escadinha subisse para a esquerda, seria um padrão S (mesmo motivo do Z). S ou Z se estabelecem quando mudamos a pedalada: se vc pedala 41, 34, 23, 12, vc terá um padrão S, e se pedala 12, 23, 34, 14, o padrão será Z. Uma tecnicalidade que vai dar na mesma, porque S e Z são imagens espelhadas do mesmo desenho. O que ocorre na frente do trabalho terá sua imagem espelhada no avesso.

No entanto, citei aqui porque se por acaso um gráfico for seguido para a execução da sarja, é possível notar que o mesmo representa o contrário do que falei:

 

Esquerda: padrão S; direita: padrão Z


Em um gráfico, a leitura usual é que seja da direita para a esquerda, e de cima para baixo. Assim, o padrão S teria um sequencia de pedaladas 12, 23, 34, 41 - o que é correto, se fosse tecido de cima para baixo. Entretanto, nós tecemos de baixo para cima, o que nos leva a um desenho Z (direita), e não S; obviamente, o contrário também vale. Assim, se você faz questão de desvios à esquerda ou à direita, deve prestar atenção a este detalhe, uma entre algumas exceções em um mundo de gráficos existentes - uma particularidade desta padronagem. É exatamente o que está ocorrendo no cachecol que estou tecendo. Minha pedalada é 12, 23, 34, 14, mas meu desenho é de padrão Z. Para mim, está perfeito, mas se eu realmente fizesse questão de um padrão S na frente do trabalho, eu teria que pedalar 14, 23, 34, 12. Esta questão também não tem importãncia, porque seria só virar o trabalho ao terminar, que lá estaria o padrão que desejo, e pronto, resolvido o problema. Chegamos à conclusão que tanto faz, mas achei interessante pontuar isso, porque posto gráficos a todo instante, e alguém  menos experiente poderia achar que está fazendo algo de errado, quando não está. Para resumir a ópera: se você quiser ver S, tem que pedalar como Z, e vice-versa, ou então, termine o trabalho e veja o que procura no avesso - de qualquer jeito, vai encontrar o que quer.




E por falar em gráficos, cheguei a postar em minha página no Facebook um gráfico de ponto sarja, e no enunciado falei que era para teares tipo "Jack type" (quadros que sobem), porque os teares mineiros tem quadros que descem, e dependendo do desenho, isso pode ser um problema - ao seguir um gráfico feito originalmente para teares Jack Type, o avesso acaba aparecendo na frente, e vice-versa. Como já falado, isso não ocorre para o ponto sarja - o desenho é o mesmo, somente o desvio será para um lado e para o outro - ou seja , S na frente, Z atrás; Z na frente, S atrás - Tudo a mesma coisa!













à esquerda: twill (Jack Type - quadros que sobem); á direita: contrabalanço (quadros que descem)



Prof. Rodrigo Monteiro (o Tecelão) rapidamente fez esta observação, e eu então respondi que, realmente, os desenhos seriam iguais, mas que não custava avisar. Assertivo, me mandou uma outra mensagem:  didaticamente, era mais importante falar sobre a exceção (avesso é igual ao direito). De maneira gentil e indireta, sugeriu que, se era para ensinar, que fosse direito (rs), começando por corrigir a redundância do post, e explicando o gráfico - o que está totalmente correto. Assim, tento me redimir aqui, procurando obedecer ao professor - pois é assim que deve ser. Espero ter sido bem-sucedida!

Havemos de ser profundamente gratos por aqueles que se dispõem a nos ensinar, com cuidado e sem arrogância. Ainda chego lá!

"Touché, Prof. Rodrigo. Obrigada por mais esta lição".


Até a próxima!