quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

Das críticas dos clientes ao seu trabalho e suas implicações

Ontem vi um post no Facebook de uma colega artesã, a Sandra Silva, crocheteira de mão cheia, há pelo menos uns 30 anos. Neste post ela contava sobre o ocorrido no dia anterior, quando uma cliente, ao receber a encomenda de uma manta, feita por Sandra (CROCHETEIRA), reclamou, dizendo que a mesma tinha feito a manta em tricô (!!!!!!!!), quando ela tinha encomendado em crochê. Sandra, ainda, postou a foto da famigerada manta, e fica claro, até para quem faz crochê mais ou menos, como eu, que é crochê mesmo, e não tricô. Assim, a reclamação não procede de jeito algum, mas Sandra, indignada com razão, postou na rede social a tal história, que deixou pasmas não só eu, mas tantas outras que se manifestaram.



Desconheço os pormenores da negociação; não sei como ocorreram a transação financeira x envio do produto, mas uma coisa sei: é muita falta de noção. Tal episódio vem abrir uma velha discussão: "o cliente sempre tem razão"? NÃO!

Claro, como cliente, temos o direito assegurado por lei, de devolução/troca em caso de recebimento de produto inadequado, em não-conformidade com aquilo que tratou/encomendou. Se estivesse mal-feito, de cor diferente da tratada, tamanho inadequado, suja, tudo isso justifica a devolução do dinheiro, sem discussão. É preciso ainda, respeitar o momento do cliente: todos estamos tentando manter a cabeça fora d'água, e assim, cancelar a encomenda por não querer gastar aquele dinheiro no momento é razoável, e totalmente justificável - imprevistos acontecem a todos, e não estamos em posição de julgar.

 Mas vejam, a reclamação aqui é, por si só, absurda: a manta recebida (foto) foi feita em tricô, e não em crochê. Ora, por favor, eu consigo ver os pontos altos, característicos do crochê, daqui da minha cadeira no computador, formando o famoso ponto leque (até eu conheço), e a cidadã vem dizer que isso não é crochê?  segundo Sandra, bateram boca por email ou mensagem, e ao final, Sandra a mandou vender a manta, já que não a agradava - e de jeito algum devolveu o dinheiro, pois afinal, entregou o que foi contratado. E eu, meus queridos, teria feito a mesmíssima coisa.

Depois de mais de 30 anos (caso de Sandra) fazendo artesanato, fica meio difícil aguentar desculpas estapafúrdias para não querer ficar com o trabalho; ainda que perder o cliente seja impensável em dias atuais, é preciso pensar na relação custo/benefício: vale a pena? Ontem, ainda, uma colega de trabalho e estudante de Direito, me disse que de acordo com o Código do Consumidor, este pode devolver o produto, por qualquer razão, em um prazo máximo de 7 dias, com direito a devolução do dinheiro. Quer dizer que se o cliente em questão quiser dar uma de louco e alegar que crochê é tricô, então tem que devolver o dinheiro, simples assim?

Desculpem-me, mas em artesanato não funciona deste jeito, sobretudo em peças encomendadas. Um artesão que passa, por exemplo, semanas trabalhando em uma peça, não pode ter seu trabalho devolvido por qualquer razão, porque SIM. Isso não deve existir em quaquer segmento comercial, aliás - minha opinião. Pior do que isso, é a repercussão do processo, que infelizmente respinga no nome do artesão e dificulta sua vida profissional. Quem tem que viver das vendas sabe o quanto isso pode ser prejudicial.

Mas porque falar sobre crochê em um blog de tecelagem? por uma razão simples: afeta a todos nós. Aconteceu com a Sandra, poderia ter sido eu, ou você. Assim, é interessante discutir estes casos, para estabelecer os limites: até que ponto o cliente, aquele que paga/pagou por seu serviço, está em seu direito de reclamar ou criticar seu trabalho? e até que ponto você deve se manifestar contra as críticas?

Como artesã, coloco-me em um lugar onde ninguém tem que gostar do que faço; como qualquer ser humano, não gosto de críticas, mesmo aquelas que vem da mais boa vontade em ajudar. Mas, também como ser humano, aprendi a aceitar as críticas, desde que tenham um mínimo de embasamento - quem critica deve justificar seu ato, e de preferência, deve dar uma solução melhor. Se a pessoa está certa, acato com o respeito devido, de quem está em constante aprendizado, como deve ser. Mas se não está...

Assim, fica o dica: crochê NÃO é tricô, e qualquer desculpa esfarrapada não é suficiente para cancelar um negócio, ainda que a lei esteja do seu lado. Vamos batalhar por mais senso crítico entre as pessoas.

Até a próxima!


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Literatura mais que recomendada

Quem acompanha o blog sabe que muitas vezes cito nomes de livros que uso constantemente como guias para padronagens e técnicas diversas. Quando comecei, eu tinha que importar diretamente da Amazon.com (americana), sem ter muita noção de quanto iria pagar no final...e bem sabemos que pode ser bem dolorido abrir a fatura do cartão de crédito...kkkk...

Com o surgimento da Amazon.com.br, podemos ter acesso a esta mesma literatura, pagando já em reais -  o que realmente facilita na hora da decisão, que infelizmente neste momento não é fácil de tomar - mas que ao menos nos coloca de frete à realidade do preço. Mas, uma coisa prometo aos aspirantes à tecelões e àqueles que já tecem: vale cada centavo, pois são livros para uma vida inteira de experimentações e resultados excepcionais. Assim, vocês podem ter acesso direto à algumas belezinhas que disponibilizei na barra lateral direita do blog, cujos links os levarão rapidamente à loja. Além disso, quem quiser também pode adquirir meus projetos do mesmo jeito: é só clicar!


Um abraço à todos, e bom divertimento!

Até a próxima!

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Dos favos e suas surpresas

"Honeycomb" é uma padronagem em 4 quadros bastante popular, justamente por produzir texturas diversas, e formas que lembram "favos de mel". Tais texturas se mostram após a retirada do trabalho do tear - quando já lavado e encolhido, o tecido mostra "cavidades", como favos, realmente. Um aspecto interessante, tema deste post, é que tal padronagem pode ser feita sem muita dificuldade, em um tear de pente liço, como já mostrado por Jane Patrick em seu livro The Weaver´s Idea Book - Creative Cloth on a Rigid Heddle Loom. E foi seguindo a receitinha dela que resolvi montar um projeto para uma almofada, e o mais legal, resolvi fazer alguns videos do processo. Para quem quer montar o urdume no tear de pedal, cá está o gráfico, que fiz e está totalmente disponível para compartilhamento:

Como podem ver, precisamos de 3 quadros somente. No tear de pente liço, esta 3a. posição precisa ser obtida pelo uso de navetes ou réguas, que conforme mostrei nos videos, e em vários posts anteriores, é bastante simples. O fio também ajuda, e muito, na obtenção do resultado esperado. Aqui no Brasil nossa abundância de fios de algodão facilita demais a execução do Honeycomb, que responde lindamente ao processo (o algodão encolhe e portanto permite a formação dos "favos"). Acrílico e outros fios sintéticos precisam ser utilizados com certo cuidado, pois o efeito esperado  pode não ocorrer.

Para este projeto, utilizei o fio Barroco Maxcolor, em 3 cores diferentes: marrom telha, amarelo e marrom escuro. Executei dois painéis, somente trocando as cores da urdidura e alguns detalhes da trama. Ao final, o painel marrom ficou lindo (minha humilde opinião), mas o amarelo ficou "amarelo demais", o que escondia um pouco os "favos", deixando o urdume muito aparente.

À esquerda, o painel em marrom, com favos delineados em amarelo; à direita, painel em amarelo, com favos delineados em marrom escuro. É possível verificar o relevo formado em ambos os painéis.

Mas, como a tecelagem é cheia de surpresas maravilhosas, eis que virei o painel amarelo para ver seu avesso, e voilà!



O lado avesso era lindíssimo, sem favos, é verdade, mas cheio de flutuações horizontais que deram um aspecto elegante ao tecido, o mesmo não ocorrendo com o painel marrom: as flutuações , embora interessantes, tem cor muito próxima ao urdume, e portanto, não ficaram muito destacadas.



E foi aí que resolvi: uma almofada dupla face! ambos os lados de uma padronagem muito bacana, que fiz questão de ensinar a vocês. Para tanto, é só acessar meu canal no YouTube, e clicar nos links. Não se esqueçam que são 5 videos, ok?

https://youtu.be/k2aVCSPLf_A (parte 1)
https://youtu.be/VAL0DYWI4EY (parte 2)
https://youtu.be/EsqlpmeY1oE (parte 3)
https://youtu.be/3375i9BjGzI (parte 4)
https://youtu.be/T57CuCripHE (parte 5)

Até a próxima!

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Promoção na loja da Amazon - corre lá!

Como sabem, tenho dois projetos à venda na na loja da Amazon. Embora trabalhoso (formatar o primeiro foi verdadeiramente um parto...), existe o fato do gerenciamento fácil de suas obras: se você escolher exclusividade com a loja, de tempos em tempos pode oferecer promoções aos leitores, o que os ajuda a conhecer seu trabalho e eventualmente adquirir outras obras suas. Mês passado, resolvi colocar uma delas na promoção do livro gratuito: por um determinado número de dias, os leitores podem baixar o conteúdo de graça. No meu caso, escolhi o volume I para este teste, e assim, convido vocês, queridos leitores, a baixarem em seus computadores ou tablets, ou smartphones, e deixarem suas impressões, aqui, ou lá na loja da Amazon, ok? Assim, do dia 08 ao dia 11 de fevereiro, é só baixar!
Para aqueles que não conhecem o site, é necessário baixar também o leitor Kindle, que é de graça - está disponível na página da loja.

À todos, bom divertimento!

http://www.amazon.com.br/Entre-fios-pregos-triangular-acabamento-ebook/dp/B00U2OSR2C/ref=sr_1_1?ie=UTF8&qid=1454934481&sr=8-1&keywords=entre+fios+e+pregos



terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Weave-along (vamos tecer juntos?)

A tradução no título não é a mais adequada; é mais como entendo um evento "WAL" (weave-along). Tais projetos visam reunir um determinado grupo de pessoas para, juntos, desenvolverem peças ao longo de um certo tempo, e durante este processo, aprenderem sobre a padronagem, a peça, o tear, ou qualquer outra coisa que seja o enfoque do projeto. São muito interessantes, divertidos, instrutivos, e sobretudo, ensinam sobre a generosidade e disposição de pessoas, por muitas vezes desconhecidas, em ajudar a "arrumar" tramas aparentemente sem solução, sugerir cores, tamanhos...é impressionante a quantidade de informações que se pode obter destes tipos de "reuniões".

Escrevo a palavra entre aspas porque nem sempre WALs ocorrem com pessoas juntas em uma mesma sala. Graças à Internet, podemos reunir pessoas do mundo inteiro somente com um toque, e então, a mágica acontece. No meu caso, meu canal é o Facebook.
Estou participando de um destes WALs, e cada foto ou comentário é sempre uma festa. Meu WAL ocorre dentro de um grupo chamado Marguerite Porter Davison in Color, que tem esse nome justamente por reunir membros que produzam peças a partir de padronagens dos famoso livro de tecelagem da autora em questão - "A Handweaver´s Pattern Book". Como é um livro antigo, naturalmente as fotos são em preto e branco  - mas a boa maioria das pessoas vai tecer em outras cores, daí o nome do grupo. A administradora deste grupo, minha amiga Darla Mohr, sugeriu ao final de 2015 um grande projeto, que começaria em janeiro/2016, e terminaria em dezembro do mesmo ano. Cada um de nós membros deveriam sortear uma padronagem do livro ( e são muitas), e então executar uma peça, de qualquer tipo. E assim surgiu o WAL.

Resolvi participar fazendo um trilho de mesa. Meu sorteio foi da padronagem conhecida como "Monk´s Belt" (cinto de monge), e para isso, escolhi fios de algodão mercerizado (Anne e Cléa 1000). O gráfico que segui, e que preparei, é este aqui:


As cores não são bem estas, mas ainda pretendo fazer outro trilho, então...

Parece meio difícil, mas a estrutura, chamada Summer and Winter, foi bastante facil de seguir; depois de um certo tempo, pode-se tecer sem olhar o gráfico. Summer and Winter refere-se a um tipo de estrutura estável que, resumidamente, apresenta o mesmo desenho com as cores invertidas no avesso. Existem outras particularidades técnicas, mas que no momento deixarei de lado. 

E então, a trama começou a ser desenvolvida:


Mágico, como sempre.








Claro, terminei as franjas do jeito que mais gosto: com um bom e simples macramé. O tamanho da peça, terminada, tinha uns bons 1,90 m (sem franjas) x 30 cm largura. Levando em consideração que eu deixei uns 20 cm de franja em cada lado, e cortei cabos de uns 2,6 m, foi na verdade pouco que perdi, tanto no take-up quanto na lavagem, o que me deixou bastante satisfeita com o resultado final.

E agora... rumo a um novo sorteio. Mas antes, pausa para alguns outros projetinhos...

Até a próxima!