quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Da "Rendição de Lee" e seu significado (para mim!)

Quando comecei nesse negócio de tecelagem, há quase 8 anos atrás, vi um dia, em uma página da Internet, uma padronagem "surreal" que se chamava "Lee´s Surrender", ou "Rendição de Lee", traduzido. Lembro-me como se fosse hoje da sensação: alguma coisa entre maravilhada e totalmente descrente que um dia eu pudesse fazer algo meramente parecido, ou seja, fiquei até triste. À medida que o tempo foi passando (ah, o tempo...senhor da razão, mesmo), dei-me conta de que, TALVEZ, não fosse assim tão impossível. Mas o tempo passou mais um pouco ainda, antes que eu realmente estivesse pronta.
Não se tratava do maquinário, dos fios, do espaço: todas estas coisas eu adquiri ao longo dos anos, até mesmo o domínio da técnica. Faltava-me era coragem para encarar o gráfico de frente e fazer as coisas acontecerem. No fundo, embora estivesse com tudo pronto, achava que seria um fiasco completo. E me contentei em tentar outras padronagens, e até mesmo, tecer peças que hoje considero até mais desafiadoras (veja o post sobre minha aventura em 4 camadas). "Dei  a volta ao mundo e voltei", e a cada parada, dava uma olhadinha no gráfico do "Lee´s Surrender" e pensava: "ainda vou tecer isso".

Coisa de quase 2 meses atrás, resolvi encarar. Para mim, seria um marco. Sempre ouvi (li, mais correto) dizer que todo tecelão tinha que tecer o "Lee´s Surrender" ao menos uma vez na vida - algo assim como uma prova de fogo. Nos EUA, há uma fascinação por esta padronagem, carrregada de história e orgulho americanos ( veja post). Até cheguei a fazer um gráfico, mas o desenho é grande, então fica difícil ler a liçagem e a pedalada. Aí fica mais fácil seguir a receita que alguém deixou no site da empresa Leclerc, fabricante canadense de teares, e que está disponível no site do Prof. Rodrigo o Tecelão (veja receita). Esta receita é cópia fiel do original publicado por Marguerite Porter Davison, tecelã americana que consagrou a padronagem nos anos 50, mas que foi criada logo após a Guerra Civil Americana. Enfim, há um certo respeito e temor, um charme todo especial, por assim, dizer, que gira em torno deste desenho tão cheio de significados.


O desenho previa 480 liços - nada de tão estrondoso, já tinha liçado até mais. Fui fazendo a liçagem devagar, parando para conferir a cada 10, a sequência: parava, admirava, e continuava o caminho. Errei só um, em 480, que foi fácil corrigir. Depois de tudo pronto, comecei, e quando o desenho começou a surgir, foi como um milagre acontecendo bem diante dos meus olhos: eu não conseguia acreditar. Ao chegar ao desenho central (foto acima), achei que fosse explodir de alegria - sim, eu estava tecendo o "Lee´s Surrender" - momento diva total.

Teci devagar, para apreciar bem a viagem. Descobri, com certa surpresa, que a sequência não era difícil de guardar, ou penosa - em certos momentos, eu já não precisava mais olhar o gráfico.



 Quando cheguei ao fim, e finalmente cortei o trabalho do tear, não sei nem descrever o sentimento: era um misto de missão cumprida/sonho realizado/tristeza porque acabou. É incrível como este trabalho me encheu de um poder que nem sei se é real, mas é no mínimo, divertido. Postei as fotos no meu grupo americano no Facebook, e entre tantos elogios e palavras de incentivo, um deles me chamou a atenção porque resumiu tudo: eu tinha tecido uma linda "relíquia de família" ou "heirloom" em inglês. E aí pensei que, no futuro longínquo, quando eu não mais estiver por aqui, os netos de meu filho possam ainda admirar "a arte da bisa", e com sorte, guardá-la para futuras gerações. Esta será portanto o heirloom da família Rizzi.
Uma frase me vem à mente: "vim, vi e venci". E, dando os acabamentos finais na peça, estou aqui já me preparando para o próximo desafio...e nem sei qual será. Mas sei que será excitante.

Até lá!

2 comentários:

  1. Belo texto, boas fotos, grande desafio, excelente trabalho, merecido troféu.
    Somos gratos pelos registros compartilhados.

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    1. O prazer é meu! obrigada por suas gentis palavras!

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