segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Cirurgia em campo aberto

O processo de tecer não se trata só disso. Tecer, aliás, é o mais fácil; para mim, é como a cereja do bolo, a parte mais gostosa de uma refeição que você deixa para o fim para apreciar como se deve (kkk...quando criança, fazia isso direto, e não parei até hoje...). Tecer é como a recompensa pelo trabalho bem feito...quando é realmente bem feito...aff...

Você gastou horas, urdindo e liçando 100, 200, 300 e poucos fios, um a um; separou os fios em grupos e amarrou; com cuidado e firmeza, enrolou os fios, conferindo a tensão; posicionou o pente e conferiu a tensão (pela enésima vez). Preparou as navetes ou lançadeiras.

Você está pronto. O espetáculo vai começar.

Falta apenas um detalhe. Você conferiu a  liçagem?

Bufa e olha para cima, pedindo a Deus paciência. Claro que não conferiu. Rapidamente, localiza grupos liçados na ordem do gráfico, levanta alguns quadros, verifica fios cruzados. OK, aparentemente, tudo certo, vamos começar.

Aparentemente.

Com alegria, começa a tramar e ver a padronagem se desenvolver. Está tão absorto no processo, que leva um tempinho para perceber algo estranho no desenho. Confere o gráfico, mas de início, não consegue identificar o que é. E então, olha mais de perto.

Um fio errado. Um, entre 200 ou 300 e tantos.




Olhem o tanto que eu já tinha tecido. Realmente estava tão entusiasmada com o desenho que fui tecendo e não reparei, de início. Somente  quando dei uma parada para conferir de longe (faço isso para ter uma visão geral ) é que vi que tinha algo estranho. E tinha mesmo.

Já aconteceu outras vezes, mas esta é a primeira vez que resolvo fotografar e explicar qual a solução adotada. Porque neste momento, algumas opções se desenham, e dependendo da situação, é preciso decidir o que fazer. O mais rápido? corta tudo, amarra e começa novamente. Mas, e se o urdume estiver naquele comprimento certo para a peça? e se for aquele fio lindo que você separou só para este projeto? vai cortar e jogar fora?

Então, resolvi executar uma "cirurgia de campo aberto". Trabalhoso? sem dúvida. Mas o resultado compensa.



1. A primeira coisa a fazer é identificar o liço errado. Para isso, é preciso conferir, desde o começo, a ordem da liçagem. Lógico que isso já foi feito antes de começar, mas fica claro que comi bola. Então... se vira, minha filha...
Isole o local, separando bem os liços daquele que vc quer trocar. Para tanto, amarrei os dois lados com barbante às laterais do tear, o que me deixou com o campo bem exposto.



2. Pegue um liço avulso (eu sempre tenho) ou então faça um liço com barbante, e posicione no local onde ele deveria estar. No meu caso, o liço errado estava no quadro 4, e ele deveria estar no quadro 3. Assim, amarrei com barbante um liço nesta posição.


3. Com toda a paciência do mundo, desamarre o grupo de fios onde o  fio errado está, e puxe, vagarosamente, liberando o fio do pente. Veja na foto o fio solto e o local de onde o danadinho foi "extraído". Preste bem atenção, pois é preciso passar o fio pelo mesmo lugar depois.


4. Libere o fio do liço errado, e passe novamente, agora pelo liço correto que vc havia posicionado anteriormente.  O liço errado pode ficar solto entre os outros sem problemas.



5 .Passe o fio pelo pente, no mesmo local de antes, e traga -o para a frente.



6. Agora, vamos "suturar". Com uma agulha de tapeçaria, e seguindo o desenho do gráfico, vá passando o fio pelos fios da trama, até o fim. Faça com cuidado e atenção.



7. Pronto. Vamos finalizar a "cirurgia". Junte este fio aos outros de seu grupo, e amarre novamente.




8. Voilà! Paciente curado. Continue a tecer normalmente.


E assim, termina mais uma historinha... com final feliz!



Detalhes sobre esta e outras padronagens do mesmo grupo serão dadas no momento adequado. Por ora, deixo aqui um vislumbre da maravilha dos repassos portugueses...

Até a próxima!

2 comentários:

  1. Lições de qualidade.
    Sempre confiro duas vezes e se tiver dúvida revolto e reconfiro.
    O retrabalho é pior. Mas tudo tem jeito e vai pelo melhor.
    Temos o Blog VICHE, do Professor Nilton de Góes Horta,
    que colaborou, a época, no livro Tecelagem Manual do Triângulo Mineiro,
    na padronagem dos desenhos dos CÓDIGOS REPASSO no computador.
    Confere em BLOGVICHE : www.blogviche.com.br/
    Ele explica e desenvolve a matemática envolvida na tecelagem dos Códigos Repasso,
    e ainda disponibiliza gratuitamente, o GERADOR DE PADRÕES:

    http://www.blogviche.com.br/wp_aplicacoes/rotina8.php

    Uma ferramenta de pré visualisação em cores, de modelos de
    Códigos Repasso, ou para confeccioná-los, on-line e à cores.
    Considero um serviço de utilidade pública aos tecelões.

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