sexta-feira, 24 de julho de 2015

Dos repassos mineiros e sua singela beleza (2)

Feito o gráfico, era hora de decidir sobre cores e fios. Eu tinha uma idéia do que fazer,e imediatamente, imaginei um fundo marsala (um vermelho amarronzado, a cor do ano de 2015), com as flores em preto. Era tão claro em minha cabeça que montei o urdume sem nenhuma dificuldade. Rapidamente, passei para a trama, e então, comecei com umas flores achatadas. Hum...não era isso que tinha em mente, mas não desgostava. Postada a foto em minha página no Facebook, o professor Rodrigo *O tecelão rapidamente comentou que o desenho deveria fazer um quadrado perfeito, e assim, sugeriu que eu dobrasse os fios que formam as pétalas. Acatei suas orientações e então resolvi fazer uma mescla de flores maiores e menores:


Lição 1 dos repassos mineiros: SEMPRE devem mostrar um quadrado perfeito. Assim, cuidado com a trama.

Terminado o tecido, o que fazer? imaginei então uma bolsa ou carteira maior, "clutch", que está super em moda. Imaginei que seria interessante mesclar o tradicional com o mais moderno, e munida desta idéia, entre, costuras, colagens, dobraduras, montei a carteira:



E não é por nada, mas tinha ficado linda. No entanto, faltava alguma coisa, e eu então imaginei uma fita de passanamaria em torno da tampa e abertura. Essa parte deu trabalho, porque colei e depois costurei à mão, mas o resultado compensou o serviço.


Ficou muito linda. E devidamente comprada pela Círculo, parceira especial deste blog.

A parte mais importante desta aventura, no entanto, teve início no desenvolvimento do trabalho: um convite à pesquisa da origem dos repassos mineiros, feito pelo Prof. Rodrigo *O tecelão, a partir de repassos portugueses que ele ganhou há muitos anos, e que resolveu agora explorá-los.
É sabido que a tecelagem brasileira tem seu início com a colonização portuguesa, e assim, estudar os repassos portugueses é buscar as origens dos desenhos mineiros, que são únicos no mundo. Senti-me honrada e muito feliz por participar desta pesquisa, e serei eternamente grata ao Prof. por esta oportunidade. Desde que iniciamos os estudos, aprendi muito, e sinto que este é só o começo - nossas discussões a respeito dos desenhos e suas variações trazem à tona novos questionamentos, novas possibilidades, e já conseguimos identificar, nos repassos mineiros, características dos repassos portugueses. Mas este é assunto para um outro post...aguardem!

Até a próxima!


terça-feira, 21 de julho de 2015

Dos repassos mineiros e sua singela beleza (1)

Meu Deus, faz uns dois meses que não passo por aqui. Terrível, mesmo; blog abandonado, largado. Estou bem penalizada, porque todo fim de semestre é assim: pesado, cheio de notas, provas...e o próximo não vai ser melhor; aliás, mais ocupado ainda com o meu trabalho. E a tecelagem, bem...esta infelizmente ficou relegada a segundo plano. Coisas da vida...mas vou tentar me organizar...
Mas vamos lá, aproveitar o fim das férias, e falar de coisas agradáveis: meu contato (finalmente) com os repassos mineiros e a importante parceria que surgiu disso.

Há muito tempo, tenho comigo o desejo de desvendar os repassos mineiros. Como já sabem, tecelagem aprendi com os americanos: meus livros, vídeos, grupos de tecelagem no Facebook, vem todos da terrinha do tio Sam. Aparentemente, havia pouco ou quase nada de material em português, e acabei, pela facilidade da língua (para mim), e pela abundância de temas sobre o assunto na Internet, migrando para a maneira como os americanos tecem. Ao longo do tempo (e isso também já contei aqui), fui adquirindo certa quantidade de material que quase dá para abrir uma biblioteca, e assim, dominei os "twills" e "overshots", "tabby", "weave as drawn", e tantos outros termos comuns neste material. Aprendi a ler gráficos, e entender que nos EUA os quadros normalmente sobem, levantando os liços, e assim, adquiri teares que executam estes mesmos movimentos (Arte Viva teares). Dominei programas e faço gráficos com rapidez, mas ainda me falta certo conhecimento teórico sobre diferentes padronagens de uma mesma estrutura - obviamente, o livro adequado já foi comprado e só me falta tempo para sentar e estudar com calma. E, desta forma, pensando como eles, tudo fazia muito sentido.

No entanto, achava vergonhoso não tecer os repassos mineiros. Tinha conseguido muitos repassos, graças à generosidade de dois mestres tecelões brasileiros: Prof. Rodrigo *O tecelão, e prof. René Schultz. O primeiro, escaneou os repassos de um livro já esgotado faz tempo, "Tecelagem manual no Triângulo Mineiro", e postou em seu blog, que é uma fonte inesgotável de informações têxteis (https://tecelagemartesanal.wordpress.com/); o segundo, tempos depois, disponibilizou o livro inteiro em seu blog Pequeno Museu da Tecelagem (http://www.jornalnocego.blogspot.com.br/). Deste modo, eu tinha o livro, e através dele, e de outras informações, tomei coragem e fui tentar aprender a ler os repassos.

Vejam bem: uma coisa é ler um gráfico. Em 10 minutos, vc entende o racional do negócio, consegue perceber a direção  da trama, consegue identificar o "tie-up" e pronto, maneja o tear. O repasso, esse é outra história.
Pra começar, é um difícil que depois se torna bem fácil. A passagem de um estado para o outro é que se mostrou bem desafiadora para mim. Isso porque partimos de uma tira de papel com quatro linhas escritas à mão, com risquinhos espalhados ao longo destas linhas. E ISSO é tudo o que se tem; estas são as instruções para executar os lindos desenhos. E aí, eu pensava, ah, tá; e agora?
(imagem do livro "Tecelagem manual no Triângulo Mineiro")
O livro, então, me ajudou a interpretar o que eram estes risquinhos, que me lembravam partituras de música (aliás, tive Música na escola e fui péssima aluna...aff...), e então achei a liçagem com a qual estava acostumada nos gráficos, lendo da direita para a esquerda. Também entendi que como era a pedalada, cuja leitura é feita da esquerda para a direita. "Ok", pensei. "Tá fácil. Jogo no gráfico e tenho o desenho, beleza!". Hum...
No entanto, faltava uma pequena coisa: o tie-up ou amarração dos pedais. Eu precisava saber a ordem das combinações, e então, é claro que não adiantava meu conhecimento americano; aliás, tentei aplicar e o primeiro gráfico ficou ridículo. Voltei ao livro, e com paciência (essa, é a maior aliada), aprendi algumas coisas sobre teares mineiros, que tem sua origem nos teares portugueses. 
Teares mineiros tem quadros que descem, enquanto que seus opostos sobem; ou seja: se eu pisar o pedal 1, o quadro 1 vai DESCER, enquanto que o quadro 3 (seu oposto), vai SUBIR. assim, são de um sistema diferente dos teares americanos. Tinha ainda que me lembrar que a disposição da liçagem levava a um ponto tela executado em 12, 34, e não 13, 24, como eu estava acostumada. Conforme já disse, meus teares são de um sistema americano, então, o que tinha  que fazer? adaptar a leitura. "Que beleza", pensei. Mal sabia eu que esta adaptação me levaria a conhecer coisas maravilhosas...
Sentei na frente do computador, e estava decidida: ou eu aprendia aquele dia, ou largava de vez. E não aceitava a segunda opção, de jeito algum. Tinha aprendido tecelagem na raça, porque pararia ali?

Foram mais de uma hora de transformações, raciocínio, modificações. Naquele dia, eu ia fazer o gráfico do repasso Rosinha, ah, eu ia. Quando ficou pronto, eu quase chorei de emoção.

Estava decifrado. Para mim, foi a minha "Pedra da Rosetta". Já tinha feito muitos gráficos, e visto coisas maravilhosas, mas nunca a singeleza de um desenho havia me tocado tão profundamente. Simples, ao mesmo tempo intrincado, inteligente. Conseguia identificar as características dos "overshots" americanos nas flutuações repetidas, formando o desenho, e ainda assim, tinha uma coisa só dele, que eu não havia visto em nenhum outro. E percebi que era a identidade cultural, que só os nativos daqui conseguem captar. E então entendi porque os americanos são tão orgulhosos de seus "coverlets" e seus desenhos: sua cultura salta aos olhos e não deixa dúvidas de onde vieram. E assim são os repassos mineiros, que para outros povos, são somente desenhos bonitos, mas para nós, brasileiros, são a expressão mais pura da história, desde os tempos coloniais.

E a parte final desta aventura, vem em outro post!