domingo, 12 de abril de 2015

Tecido dobrado - e decorado! (parte 2)

E aí, começou minha preparação.
Eu já tinha feito algum treinamento em tecido dobrado, conforme já contei no post anterior. Para tanto, me utilizei de um material excelente, em inglês, da autora Jennifer Moore, e também de instruções encontradas no blog do Rodrigo "o tecelão", cheio de dicas importantes. Para quem se interessar, segue os links de do vídeo e ebook da Jennifer: http://www.interweavestore.com/doubleweave-basics-downloadhttp://www.interweavestore.com/doubleweave-ebook, bem como o blog do Rodrigo https://tecelagemartesanal.wordpress.com/receita-dos-tecidos-dobrado-e-tubular/

O material da Jennifer é mais detalhado, mostrando várias maneiras diferentes de aplicar a técnica de tecido dobrado. Dentre elas, aquela que escolhi - tecido dobrado decorado - é uma técnica desenvolvida pela artesã Clotilde Barrett nos anos 70 e que utiliza o básico da execução do tecido dobrado combinado à liçada do que chamamos overshot, o equivalente dos nossos repassos mineiros. Sem entrar em detalhes (isso fica para meu projeto futuro), o que ocorre é que a técnica elimina as flutuações do fio da trama do overshot, mantendo o desenho original. Para entendermos um pouco melhor, vou mostrar aqui o gráfico da padronagem que escolhi para este projeto, chamada de "Double charriot wheels" (rodas de carruagem), ou "Church windows" (janelas de igreja). As instruções para o gráfico tirei de um livro de Josephine Estes, tecelã americana dos anos 50 -60. As partes I e II do livro podem ser baixadas da Internet de graça: http://www.cs.arizona.edu/patterns/weaving/wtopic_overshot.html

Eis o gráfico original. Se olharmos com cuidado, verificaremos que existem regiões onde o fio da trama passa por cima de 3 ou mais fios da urdidura, o que chamamos "flutuações". Isso caracteriza a padronagem "overshot", pois ajuda a destacar o desenho formado. Tais flutuações também são verificadas nos repassos. 
São escolhidas duas cores contrastantes, uma para ser o que chamamos "background" ou cor de fundo, representando o urdume, que no nosso caso é o branco, e outra para ser o"pattern", ou a cor da trama, que aqui é o azul. Como sempre, a liçada tem uma determinada sequência, que combinada à pedalada, vai gerar o padrão mostrado. Um elemento importante, no entanto, é o que se chama de "fio de ligação", que é passado no padrão do ponto tela: 1-3, 2-4 ou 1-2, 3-4, dependendo da amarração do tear, e que serve para estabilizar o tecido, uma vez que existem muitas flutuações, que pode deixar o tecido cheio de "buracos", ou regiões onde não há cruzamento de fios 1/1. Deste modo, para tecer, usa-se uma navete com o fio da trama e outra para passar o fio de ligação, com linha na cor do urdume, normalmente. 

Muito bem. A idéia de Clotilde foi combinar as duas camadas do tecido dobrado para eliminar a necessidade do fio de ligação, uma vez que a combinação das pedaladas vai igualmente eliminar as flutuações, mantendo o desenho original, tanto no lado direito (primeira camada) quanto no "avesso", que na realidade, será o direito da segunda camada. O que ocorre é que no lado direito, veremos o desenho de uma cor, e o fundo de outro, enquanto que no avesso será o contrário. O gráfico para a "operação" é este, meio chato de fazer:



 Os detalhes virão futuramente. De maneira geral, o gráfico prevê o entrelaçamento das duas camadas, o que dobra o número de fios e faz com que o desenho se sobressaia sem a necessidade de flutuações. O mais bacana, é que todo o desenho é construído em ponto tela. Parece mágica. 

Segue fotos da criança. A cada avanço durante a execução, eu ficava mais e mais encantada e intrigada com os vários aspectos deste tipo de tecelagem. 





Para completar, gravei uns vídeos, um deles postei no meu canal do YouTube, sobre o mover das camadas:

E assim, termina mais uma aventura. A próxima? é só aguardar!

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Tecido dobrado - e decorado!

Olá, crianças! faz mais de um mês que não apareço por aqui, por várias razões, dentre as quais, a mais importante: a última aventura tomou mais tempo que o esperado, pois desta vez fiz o que NUNCA faço: lição de casa. Bom, explico.
Desde que iniciei na tecelagem, uma coisa que nunca fiz foi amostrar. Tenho infinita paciência para definir estilos e cores, mas quando se trata de preparar o tear para um tecido de amostra, que não terá outra finalidade...puxa...
Está errado, eu sei. O objetivo de qualquer processo de amostragem é justamente mostrar, ou trazer o mais próximo possível do real o resultado que se espera ao final do processo, portanto, o tecido de amostra É útil, com finalidade e eficácia comprovadas - ação lógica e que deve ser prática constante. Um vez li em um artigo, já não me lembro onde, que muitos praticantes de tecelagem não fazem amostras, pois tem pressa e ansiedade de dar àquele pedaço de pano um destino, vida. E aí, tendem a cometer erros em peças maiores, que poderiam ter sido evitados se somente um tempo tivesse sido disponibilizado para amostrar. Imaginem se não me encaixei neste grupo...como uma luva...
Mas voltemos à aventura, que começou com uma semente germinando na minha cabeça, como sempre, alimentada por fotos maravilhosas dos trabalhos de minhas amigas do grupo do Facebook 4-shaft Weaving (https://www.facebook.com/groups/4shaftweaving/), além do "tudo de bom" site da Interweave editora (www.weavingtoday.com), que chamo carinhosamente de paraíso e perdição: paraíso para os olhos e perdição para o cartão de crédito...rs...

 "Doubleweave" ou tecido dobrado, é uma técnica bastante difundida nos EUA, e obviamente na Europa, também conhecida aqui no Brasil,  voltada inicialmente para aumentar em 1x a largura de um tecido que está sendo tecido. Assim, se você tem um tear de largura limitada, como eu, por exemplo, fica difícil tecer  toalhas de mesa ou colchas, porque são peças que requerem uma largura de pelo menos 1,50 m (meu tear tem 1 m de largura, e quando o tecido encolher, será menos do que isso). É claro que neste caso, é totalmente possível tecer dois painéis e uni-los, por costura à maquina, ou à mão, ou outra técnica decorativa, e da mesma maneira, podemos ter peças grandes tecidas em teares pequenos, sem dúvida. Mas, se houver algum jeito de fazer uma peça de uma vez só, por que não?A idéia, tão simples quanto brilhante, é fazer com que seus 4 quadros trabalhem de modo a produzirem duas camadas de tecido, ao invés da única normalmente obtida.

Para o ponto tela, o mais básico de todos, tudo o que precisamos é fios verticais ímpares e pares alternados pela passagem do fio horizontal, conhecido como trama. Deste modo, levantamos fios ímpares, passamos o fio horizontal, batemos o pente; depois, levantamos fios pares, passamos o fio horizontal novamente, batemos o pente, e deste modo alternado, construimos o que se chama tela, que pode ser reproduzido em qualquer tipo de tear, desde os mais simples até mais complexos. Para um tear de 2 quadros, pente liço ou pregos, o gráfico básico seria assim:
 O primeiro movimento levanta todos os fios impares, e o segundo, todos os fios pares. Alterne estes movimentos, e voilà! temos ponto tela, certo?
Para
Para um tear de 4 quadros, teríamos, um gráfico como o de cima. Se dividíssemos este  gráfico em dois, teríamos a mesma coisa do primeiro. Assim, em um tear de 4 quadros, podemos ter duas camadas de ponto tela sendo executadas ao mesmo tempo: uma camada para os quadros 1 e 2 e outra camada, para os quadros 3 e 4. Não vou aqui entrar em detalhes sobre a ordem da pedalada ou "tie-up", pois tais informações vão fazer parte de um novo projeto em desenvolvimento, mas é possível, por este método, executar duas camadas de uma vez, ligada por um lado - e então temos o dobro da largura assim que retirarmos o tecido do tear e o abrirmos.
Se produzirmos duas camadas ligadas por ambos os lados, um tubo será feito, e então este tecido é conhecido como tubular, útil para bolsas, mangas, gorros, etc

Outra função do tecido dobrado está na formação de um tecido com o dobro da densidade que teria normalmente. Neste caso, temos a intercalação das 4 camadas para a execução de uma mais grossa. Muito útil para  tapetes, trilhos de mesa e outras peças que requerem tecidos mais reforçados.

É possível também, e esta foi a técnica que usei, que determinadas padronagens, tais como os repassos, possam ser reproduzidas em tecido dobrado, em duas cores bem distintas, o que forma ao mesmo tempo um tecido grosso e de duas faces. Chamada em inglês de "patterned doubleweave", ou tecido dobrado decorado, chama a atenção por reproduzir em ponto tela desenhos que normalmente apresentam muitos fios flutuantes, característica dos repassos, que chamamos em inglês de overshot. Tal técnica, escolhida por mim para esta nova aventura, é trabalhosa e cheia de detalhes. Foi difícil entender as passagens, e é preciso atenção redobrada, mas o resultado vale a pena mil vezes. Assim, fica fácil entender que primeiro passei alguns dias treinando o básico do tecido dobrado:



Após um pequeno drama para organizar os fios pelo pente (são 4/fenda), iniciei a amostra trabalhando com as 4 camadas juntas (parte listrada). Depois, comecei a separar as cores, e parecia um pequeno milagre ver as camadas separadas - branco em cima, azul embaixo.

Passei então para executar alguns desenhos simples, para entender como as camadas podiam se misturar. Com a ajuda de uma navete ou régua, pode-se fazer um xadrez perfeito (cores totamente separadas)
ou aplicar alguns efeitos simples:

Quando achei que já estava mais segura, cortei o trabalho e retirei do tear. Guardei a amostra, e me preparei para iniciar a maior aventura "tecelística" de minha vida...Que vem no próximo post!