domingo, 18 de janeiro de 2015

Dezembro decifrado

Feliz Ano Novo, queridos leitores! 2015 chegou faz 18 dias, e já consegui produzir algumas peças, dentre elas, terminar uma que comecei em dezembro do ano passado, e que acabou exatamente hoje. Obviamente, como é padrão das histórias que conto aqui, a aventura começou de um jeito, mas acabou de outro, com final feliz, é claro; afinal, se não tiver drama, desconfie: talvez não seja coisa minha...kkkk...

Mas vamos começar, como é de praxe, com o gráfico:



Este lindo desenho foi copiado de um livro de gráficos em "overshot" (a mesma padronagem dos repassos mineiros), que pertencem ao espólio da artesã americana Bertha Gray Hayes, e que está disponível na Amazon books (http://www.amazon.com/Weaving-Designs-Bertha-Gray-Hayes/dp/0764332465/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1421612323&sr=1-1&keywords=bertha+gray+hayes&pebp=1421612326770&peasin=764332465).

 Dentre os vários desenhos que criou, este, que se chama "December Decoded" (dezembro decifrado), me chamou a atenção pela beleza geral e pelo fato de que eu buscava alguma coisa representativa para terminar o ano. Assim, o gráfico me pareceu totalmente adequado para uma peça que estava em minha mente desde as almofadas: uma toalha de mesa. Sendo este um trabalho grande, eu tinha que medir e calcular com cuidado a quantidade de fios e o comprimento para não errar. Este cálculo, para mim, era fundamental, pois como já havia resolvido, tentaria por todas as maneiras não gastar fios demais, e assim, tentei ser parcimoniosa com o urdume, e fiz os cálculos de largura e comprimento. Na largura, calculei uns 10% de encolhimento após a lavagem, e para o comprimento, julguei que uns 60 cm a mais seriam o suficiente. 

Ledo engano. Mas, vamos seguir em frente.

Bom, após toda a fase de preparação (urdir, liçar), parti para iniciar a trama, animadíssima para ver o desenho surgir. Ao iniciar, comecei a perceber que o desenho não se destacava como gostaria, e assim, resolvi intensificar as partes onde há repetição de fios na mesma cala. E então começou a ficar como eu queria:
 

Fui avançando, lentamente (pois overshot não é simples de tecer...)


Após coisa de 60 cm , olhei para a parte de trás do tear e vi, para meu espanto, que o URDUME ESTAVA ACABANDO (???). Olhei e vi que teria, no máximo, mais uns 15 cm de fios, e depois, só o que estava na frente do pente. No total, mais uns 35 cm.  E eu precisava de, tipo, uns 1,60 cm tecidos! ou seja, onde estava aquele quase 1 metro? 
 Não acreditei em meus olhos. A primeira providência foi medir os fios novamente, pois com certeza eu havia errado no corte. E, não. Tinha cortado de acordo com os planos, que evidentemente, eram falhos. Fiquei estupefada com o tamanho do erro. Bem, não havia o que fazer, somente terminar o tecido, lavar e ver o que tinha acontecido. E assim, entre indignada e espantada, cheguei "ao fim". Que raiva.

Coloquei o tecido para lavar, e após a secagem, fui conferir as medidas. Sim, como sempre, previ corretamente o encolhimento, e para completar meu desgosto, conferi a largura e vi que tinha acertado, em cheio. Agora, o comprimento...bem menos do que o previsto. Era oficial: eu tinha conseguido fazer pouco mais de 1/2 toalha.

Fiquei passada, pois não conseguia entender como fui errar tanto nos cálculos, e para menos ainda.  Normalmente, tendo a colocar a mais, mas desta vez levei a economia ao extremo, e só não compreendia o por quê. Fui estudar, naturalmente, pesquisar. E em minhas pesquisas, cheguei a um conceito o qual nunca dei muita atenção, mas que agora me prendia totalmente: TAKEUP, ou encolhimento dos fios da urdidura pela passagem dos fios da trama. Claro, eu sempre entendi que a tensão da urdidura seria aumentada com a passagem dos fios da trama, uma vez que há entrelaçamento e posterior batida do pente. Mas nunca pensei em encolhimento dos fios. Também li que o takeup ocorre mais acentuadamente quanto mais grosso for o fio da trama em relação ao urdume, e também tem a ver com o tipo de estrutura ou padronagem que está se usando. 

Assim, descobri que overshot é um tipo de desenho que vai ter um takeup acentuado, justamente porque  a trama é feita normalmente com um fio mais grosso que o urdume. De alguma maneira, as áreas onde o desenho se repete na mesma cala aparentemente cooperam para aumentar o takeup. Some-se a isso a batida do pente e a extensão em comprimento dos fios, e voilá! quanto maior o trabalho, maior o takeup, é o que pude concluir. Utilizei, então uma ferramenta disponível na no site Weavolution ( http://weavolution.com/weaving-calculator)e também em outros sites, tais como e-weaving (http://www.e-weaving.com/MoALive.html), e confirmei o q já sabia: faltou fios. Estas ferramentas não tem como saber qual padronagem é aplicada, mas faz um cálculo bastante consistente, contribuindo com um geral de 10% de takeup, entre outros acréscimos. Fiz as conversões (tem que converter cm e m em polegadas e jardas, tem app de graça  para celular que faz isso facilmente), e depois de colocados os parâmetros, vi que se eu tivesse calculado mais uns 70 cm em cima do que calculei, eu teria o que precisava, na casca. Ou seja, achei o meu "quase 1 metro". O engraçado é que já teci overshot antes; na época, não estava preocupada com o comprimento final, e acho que por isso, não me atentei para estes detalhes. Mas agora...

Bom, como nem tudo é desgraça, parti para o prático: o que fazer com o tecido? e aí, para terminar a história, cortei em dois lindos jogos americanos, que serão presente para um casal amigo. Coloquei forros de gorgurinho, e o viés de algodão em volta completou as peças. A costura não é das melhores, mas não está comprometendo; ficou firme e bastante elegante, e acho que vai agradar.


Lição 1 de 2015: cuidado ao economizar. No fim das contas, se tiver que pecar, que seja por excesso.
Um pequeno ajuste às minhas resoluções de Ano Novo.

E que venha o próximo desafio!