quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Chegou dezembro (enfim!)

E não é que este ano tão conturbado está chegando ao fim? e conforme prometido, aí vai mais este post, provavelmente o último deste ano, porque, meus caros amigos, eu preciso parar. Mesmo.

E como um presentinho aos fãs, vou deixar aqui uma receitinha que pode ser executada em um tear de pedal ou pente liço. Tudo o que voce precisa é de uma régua, navetes, tempo e paciência. Já adianto que não é originalidade minha, mas sim baseada em uma foto de Michele Parchert, do grupo Rigid Heddle Adventure no Facebook. Uma idéia simples, de ótimo efeito, rápida para fazer, e com certeza, um ótimo presente de Natal. Baseando-me na foto, montei uma receita para deixar aqui e inspirar idéias interessantes.


Vejam só a idéia de Michele para um trilho de mesa. Aqui ela usa fios de acrílico verde e amarelo, mas que podem ser tranquilamente substituidos por barbante 8, por exemplo. O que Michele deseja é construir um barrado em amarelo, enquanto que o resto fica em ponto tela. Parece complexo, uma vez que o tear de pente liço só tem duas posições, mas conforme já mostrei aqui várias vezes, aplicando a técnica de pickup você pode fazer bem mais.


Então, sem mais delongas, vamos à receita:

1. O trabalho em questão apresenta 92 fios. Um bom número neste caso seria 94, para balancear bem os dois lados do barrado. Não sei que pente ela está usando, mas pelo fio deve ser 3:1. Este tipo de pente é bem adequado ao barbante 6, por exemplo, ou Barroco, que pessoalmente é o que eu usaria para fazer este trilho. Se optar por barbante 8, um pente 2:1 seria a opção. Deste modo, calcule o número de fios (desde que seja par), para a largura, e o comprimento dos mesmos, de acordo com o que se planeja. Escolha duas cores bem contrastantes, para que o barrado seja o destaque, e encha 3 navetes: uma com a cor de base e duas com a cor do barrado. 

2. Uma vez montado o urdume, teça em ponto tela com a cor de base, por 5 duítes (ida e volta - 10 "carreiras")
3. Com a ajuda de uma régua ou navete auxiliar, você fará o pickup, erguendo os fios desejados para passar a navete com o fio do barrado. Assim, pode-se deixar o pente já na posição (em cima ou embaixo, depende de como parou), ou então ponha em pré-tear (todos os fios na mesma altura), o que dá um pouquinho de trabalho, mas pode ajudar a não erguer fios errados. Com a régua (que deve ser um pouco maior do que a largura do trabalho), passe por baixo de 6 fios iniciais, e vá passando por cima de 2, por baixo de 2 até chegar aos 6 fios finais. Passe então a régua  por baixo deles até chegar ao outro lado. Aproxime a régua do pente e vire, fazendo com que ela fique em posição vertical. Veja que este movimento ergue alguns fios. Passe então a navete com o fio do barrado. Volte a régua à posição inicial e retire. Bata o pente normalmente.Veja agora  uma sequência de várias flutuações ao longo da trama. Mude agora a posição do pente e faça agora uma 1/2 duíte normal, em ponto tela, com a cor de base. Repita o procedimento. Agora você tem 21 sequências duplas de flutuações ao longo da trama. 
4. A próxima sequência deve ser feita com as flutuações em locais alternados. Deste modo, repita o procedimento acima, mas agora passando por baixo de 8 fios iniciais, e 8 fios finais. Esta ação vai produzir duas flutuações a menos, e em lugares alternados. Faça outra sequência dupla, iniciando e terminando com 6 fios. No total, você terá um barrado com 3 sequências duplas alternadas.

5. Agora, comece a tecer as laterais do barrado. Neste ponto você precisará de outra navete com fio escolhido, uma que entrará por um lado do trabalho,e outra que entrará pelo lado oposto. Isto é necessário porque o centro estará livre de flutuações. Com a régua, passe por baixo de 8 fios finais, e passe por cima de 2, por baixo de 2 e por cima de dois. Agora passe por baixo de todos os fios centrais, até sobrar 12 fios finais. Passe então por cima de 2, por baixo de 2 e por cima de 2, e por fim, passe por baixo dos 6 restantes. Ponha a régua em posição vertical como já citado, e passe uma navete com fio pelo lado direito, saindo com a mesma para o lado do avesso do trabalho. Passe outra navete com fio pelo lado esquerdo, fazendo a mesma coisa. Retire a régua e bata o pente. Mude a cala e passe o fio de base normalmente. Você está construindo o centro com ponto tela, e as laterais do barrado. Continue a tecer flutuações da mesma maneira alternada, até que as laterais tenham sido tecidas no tamanho desejado. Para fechar o barrado, repita o procedimento dos itens 3 e 4.

6. Termine com 5 duítes de fio base em ponto tela. Arremate como desejado, retire do tear e lave, para assentar a trama. Não se esqueça de fixar as franjas. 

7. Deixe bem lindo e presenteie! aposto que você vai arrasar!

8. DIVIRTA-SE! 


Aproveito para desejar a todos ótimas Festas, e um ano de 2016 com fé e esperança renovadas.  E me aguardem, porque vem mais por aí!

Abraços a todos,

Claudia Rizzi

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

E assim se passaram 2 meses... (Escrito nas estrelas parte 2)

2 meses e 2 dias. Este é o exato tempo que fiquei sem passar por aqui. Nem sei dizer quantas mudanças ocorreram ao longo deste tempo. Nem mesmo voltei a este blog para contar o final de minha aventura "astrológica", e então o faço agora, antes do ano terminar. Aliás, vou deixar mais um post para garantir nossa despedida de 2015, pois sei que só conversaremos de novo no ano que vem...cansaço extremo é a palavra que tenho em mente, ao lado de tantas outras...

Muito bem. Na última vez que conversamos, eu tentava usar de um mapa astrológico e um círculo cromático para combinar cores. De posse dos resultados, determinei qual seria a padronagem, e cheguei a um gráfico assim:

Esta é uma padronagem é chamada em inglês de "polychrome crackle", ou crackle policromático. O resultado são várias flutuações ao longo da trama, que são tecidas em um padrão de ponto sarja: 12, 23, 34, 14. A pedalada é igual à liçagem e portanto, bem fácil de acompanhar. Eu montei um gráfico simples, de dois blocos, mas até 4 blocos são possíveis. No desenho vemos a liçada com o primeiro bloco: 12321, e na sequência, o segundo: 41214, repetidos algumas vezes. Blocos 1234321 e 14341 também poderiam fornecer este padrão crackle, que é assim chamado por lembrar as pequenas rachaduras em uma louça ou porcelana, pelo menos de acordo com Mary Meigs Atwater, tecelã americana que consagrou o nome.


Bem, feitas as preparações de praxe, eis que comecei a tecer, com resultado visual maravilhoso e surpreendente:











O avesso é incrível, e o tecido é bastante grosso e firme, ideal para um tapete, por exemplo. Amei, sobretudo, a combinação das cores e devo explorar um pouco mais este método a partir do ano que vem.

Até a próxima!

terça-feira, 6 de outubro de 2015

Escrito nas estrelas (1)

Algum tempo atrás deparei-me com um post em um blog da artesã americana Bonnie Tarses (http://bonnietarses.com/studio/) onde ela descreve o uso do círculo cromático aliado ao mapa astral de cada pessoa. De maneira rápida, Bonnie conta que, sobrepondo um mapa com 12 casas astrais sobre um círculo cromático, que é composto de 12 cores, entre primárias, secundárias e terciárias, é possível ter combinações da ordem de 5 bilhões, somente combinando posições de planetas com as cores do circulo. Achei interessantíssimo, e conforme ela mesmo diz, produto mais pessoal, impossível - satisfação garantida!

Fiquei pensando neste assunto hoje, e tentei fazer uma brincadeirinha comigo mesma. Primeiramente, procurei na Internet um círculo cromático. Muito fácil, pois existem várias figuras. Selecionei uma e reservei. (Imagem do YouTube)






O próximo passo seria fazer meu mapa astral, o que é bem simples e gratuito (desde que vc não queira saber detalhes aprofundados). Basta sua data de nascimento e hora, que deve ser correta (levando-se em consideração horário de verão, inclusive). Este aqui foi feito no site Somos todos um (http://somostodosum.ig.com.br/mapa/)

Em tempo: tenho sol em Escorpião.

Aí tentei sobrepor as duas figuras, e até consegui facilmente, mas tinha uma dúvida: qual era a posição correta do círculo cromático? como eu deveria sobrepô-las? Fiquei tentando achar um outro jeito, até que me deparei com um "círculo cromático  de cristais" (http://www.crystalvaults.com/crystal-colors-explained)

O interessante para mim, aqui, não eram os cristais, mais sim ver que cada cristal tem uma cor, e que está relacionado, entre outras coisas, a cada signo, representado pelo período de aprox. um mês. Aí imaginei que, se eu posicionasse o mapa de maneira que a casa do signo (escorpião)  ficasse exatamente em cima do setor (cor) representativo do período de aniversário (22 out - 20 nov), no circulo cromático, eu conseguiria alguma coisa.


Importante salientar que nada entendo de mapas astrais; realmente não sei o que significam os símbolos isoladamente, somente que esta era a posição dos planetas no céu no momento em que nasci. Deste modo, e posicionando a casa de Escorpião na cor vermelha, que representa o período de nascimento, vejo que tenho planetas que estão distribuidos em abundância pelas cores vermelho, abóbora e laranja; alguns que recaem sobre o verde, um sobre o azul e um sobre o violeta. Deste modo, estas cores poderiam ser combinadas entre si de inúmeras maneiras diferentes, criando padrões distintos entre si. Esta, portanto, é uma maneira bem interessante de ter idéias diferentes com cores -e, claro, um produto bastante personalizado. Com certeza, Bonnie deve ter um método um pouco diferente do meu, mas o princípio é o mesmo. 
Além disso, há ainda o bônus da "energia" trazida por cada cor, que estimula atitudes descritas no círculo. Por exemplo, na minha seleção de cores, o vermelho, o abóbora e laranja contribuem com força, coragem, alegria e energia; o verde, com renovação e crescimento; o azul, com confiança; o violeta, com intuição. Se apenas por um acaso, tais qualidades estiverem embutidas em mim a partir de meu nascimento, então combinar estas cores irão acentuá-las? é para se pensar. 

Não é de hoje que relacionamos cores à sentimentos e momentos de nossa vida. O preto, que significa a ausência de cores, é o símbolo máximo da discrição e de tudo que é chique na moda, ao mesmo tempo que representa luto e tristeza; o branco, justamente o contrário, nos remete ao dia e luz solar, claridade total e tranquilidade, uma tela vazia onde podemos reescrever a história - eis a escolha "9 entre 10" para a virada de Ano Novo. Azul-claro, o amor; vermelho, a paixão, e por aí vai. 


Acho a astrologia bastante divertida; gosto de ler um pouco sobre o assunto e atormentar os amigos sobre seus horóscopos - é um passatempo. Naturalmente não pauto minha vida pelas "previsões" (quem me guia é Deus), mas é no mínimo curioso encontrar dados astrológicos que correspondam a facetas de sua personalidade.  Deixando o esoterismo de lado, o método de Bonnie Tarses é inteligente em nos dar uma possibilidade divertida de combinação de cores - afinal, quem não gostaria de ter uma echarpe, xale, ou bolsa, por exemplo, com as cores de sua carta natal? um presente e tanto, não é?

Agora, o que preciso fazer é combinar as cores separadas e tecer alguma coisa. Como combinar, é algo a se pensar para o próximo post. 

Aguardem os novos capítulos desta aventura!
Até lá!

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Da "Rendição de Lee" e seu significado (para mim!)

Quando comecei nesse negócio de tecelagem, há quase 8 anos atrás, vi um dia, em uma página da Internet, uma padronagem "surreal" que se chamava "Lee´s Surrender", ou "Rendição de Lee", traduzido. Lembro-me como se fosse hoje da sensação: alguma coisa entre maravilhada e totalmente descrente que um dia eu pudesse fazer algo meramente parecido, ou seja, fiquei até triste. À medida que o tempo foi passando (ah, o tempo...senhor da razão, mesmo), dei-me conta de que, TALVEZ, não fosse assim tão impossível. Mas o tempo passou mais um pouco ainda, antes que eu realmente estivesse pronta.
Não se tratava do maquinário, dos fios, do espaço: todas estas coisas eu adquiri ao longo dos anos, até mesmo o domínio da técnica. Faltava-me era coragem para encarar o gráfico de frente e fazer as coisas acontecerem. No fundo, embora estivesse com tudo pronto, achava que seria um fiasco completo. E me contentei em tentar outras padronagens, e até mesmo, tecer peças que hoje considero até mais desafiadoras (veja o post sobre minha aventura em 4 camadas). "Dei  a volta ao mundo e voltei", e a cada parada, dava uma olhadinha no gráfico do "Lee´s Surrender" e pensava: "ainda vou tecer isso".

Coisa de quase 2 meses atrás, resolvi encarar. Para mim, seria um marco. Sempre ouvi (li, mais correto) dizer que todo tecelão tinha que tecer o "Lee´s Surrender" ao menos uma vez na vida - algo assim como uma prova de fogo. Nos EUA, há uma fascinação por esta padronagem, carrregada de história e orgulho americanos ( veja post). Até cheguei a fazer um gráfico, mas o desenho é grande, então fica difícil ler a liçagem e a pedalada. Aí fica mais fácil seguir a receita que alguém deixou no site da empresa Leclerc, fabricante canadense de teares, e que está disponível no site do Prof. Rodrigo o Tecelão (veja receita). Esta receita é cópia fiel do original publicado por Marguerite Porter Davison, tecelã americana que consagrou a padronagem nos anos 50, mas que foi criada logo após a Guerra Civil Americana. Enfim, há um certo respeito e temor, um charme todo especial, por assim, dizer, que gira em torno deste desenho tão cheio de significados.


O desenho previa 480 liços - nada de tão estrondoso, já tinha liçado até mais. Fui fazendo a liçagem devagar, parando para conferir a cada 10, a sequência: parava, admirava, e continuava o caminho. Errei só um, em 480, que foi fácil corrigir. Depois de tudo pronto, comecei, e quando o desenho começou a surgir, foi como um milagre acontecendo bem diante dos meus olhos: eu não conseguia acreditar. Ao chegar ao desenho central (foto acima), achei que fosse explodir de alegria - sim, eu estava tecendo o "Lee´s Surrender" - momento diva total.

Teci devagar, para apreciar bem a viagem. Descobri, com certa surpresa, que a sequência não era difícil de guardar, ou penosa - em certos momentos, eu já não precisava mais olhar o gráfico.



 Quando cheguei ao fim, e finalmente cortei o trabalho do tear, não sei nem descrever o sentimento: era um misto de missão cumprida/sonho realizado/tristeza porque acabou. É incrível como este trabalho me encheu de um poder que nem sei se é real, mas é no mínimo, divertido. Postei as fotos no meu grupo americano no Facebook, e entre tantos elogios e palavras de incentivo, um deles me chamou a atenção porque resumiu tudo: eu tinha tecido uma linda "relíquia de família" ou "heirloom" em inglês. E aí pensei que, no futuro longínquo, quando eu não mais estiver por aqui, os netos de meu filho possam ainda admirar "a arte da bisa", e com sorte, guardá-la para futuras gerações. Esta será portanto o heirloom da família Rizzi.
Uma frase me vem à mente: "vim, vi e venci". E, dando os acabamentos finais na peça, estou aqui já me preparando para o próximo desafio...e nem sei qual será. Mas sei que será excitante.

Até lá!

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

"Tá meio portuguesinha!"

Fernanda Maria é uma colega de trabalho e amiga de muitos anos. Nascida no Brasil, assim como suas irmãs, sempre digo que é a brasileira mais portuguesa que conheço (no melhor dos sentidos, nada daquelas piadas de mau gosto). Os pais são portugueses, e segundo ela, conheceram-se no navio que vinha da Europa para cá. Casaram-se e fixaram residência no Brasil, mas estão sempre voltando à "terrinha" para visitar parentes e amigos na cidadela de Ansião. Fernanda já foi algumas vezes também, e adora, pois tem a oportunidade de ir para várias cidades, como por exemplo, Fátima (de onde trouxe para meu marido uma linda Nossa Senhora), além de outros pontos turísticos lindíssimos de Portugal. Vive sua tradição de maneira orgulhosa, como poucos, e é uma delícia interagir com ela e suas histórias - impossível não aprender coisas interessantes.

Quando resolvi participar do Concurso Cultural da Círculo (http://www.euamobarroco.com.br/)
 tinha esse plano de tecer um trilho de mesa com umas 4 cores diferentes de Barroco Maxcolor. Escolhi, comprei, e quando chegaram, montei o urdume em um tear de pente liço, pente 3:1 (é o melhor para o Barroco - humilde opinião), e de posse de um plano meio rápído, comecei a organizar as cores no pente:

Eu queria um padrão "esteirinha" ou "log cabin" como se chama em inglês, mas ao invés de usar somente 2 cores, como é o normal, resolvi fazer uma coisinha diferente.

Ao começar a tecer, achei a mistura muito viva, alegre. Realmente fiquei feliz com o resultado, e no fundo do cérebro alguma coisa dizia que lembrava um conjunto de cores que eu já tinha visto em algum lugar, mas não sabia onde. A´te que postei uma foto em minha página no Facebook, e eis que a Fernanda Maria comenta: "tá meio portuguesinha"! 



Comecei a prestar atenção na trama, e aí eu vi que realmente o amarelo, com vermelho e verde são cores de Portugal! à medida que o trabalho avançava, as cores se misturavam e ficavam ainda mais vibrantes




Após a lavagem, quando a peça se acomoda, o conjunto ficou muitíssimo alegre



O efeito das 4 cores combinaram de maneira perfeita, até mais do que esperava. Tal padronagem é extremamente fácil de fazer, porque trata-se somente de ponto tela - o diferencial são as cores, que organizadas, fornecem este padrão.  

E assim, Fernanda, em sua homenagem, batizei a peça de "Portuguesinha", que segue hoje para a Círculo para que, ao lado de tantas maravilhas, possa humildemente participar deste concurso. Ganhando ou perdendo - o que importa? - a Portuguesinha estará lá fazendo bonito, isso eu sei!


E viva a tradição portuguesa - não só da Fernanda, mas de uma maneira ou de outra, de todos nós!


Até a próxima!

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Cirurgia em campo aberto

O processo de tecer não se trata só disso. Tecer, aliás, é o mais fácil; para mim, é como a cereja do bolo, a parte mais gostosa de uma refeição que você deixa para o fim para apreciar como se deve (kkk...quando criança, fazia isso direto, e não parei até hoje...). Tecer é como a recompensa pelo trabalho bem feito...quando é realmente bem feito...aff...

Você gastou horas, urdindo e liçando 100, 200, 300 e poucos fios, um a um; separou os fios em grupos e amarrou; com cuidado e firmeza, enrolou os fios, conferindo a tensão; posicionou o pente e conferiu a tensão (pela enésima vez). Preparou as navetes ou lançadeiras.

Você está pronto. O espetáculo vai começar.

Falta apenas um detalhe. Você conferiu a  liçagem?

Bufa e olha para cima, pedindo a Deus paciência. Claro que não conferiu. Rapidamente, localiza grupos liçados na ordem do gráfico, levanta alguns quadros, verifica fios cruzados. OK, aparentemente, tudo certo, vamos começar.

Aparentemente.

Com alegria, começa a tramar e ver a padronagem se desenvolver. Está tão absorto no processo, que leva um tempinho para perceber algo estranho no desenho. Confere o gráfico, mas de início, não consegue identificar o que é. E então, olha mais de perto.

Um fio errado. Um, entre 200 ou 300 e tantos.




Olhem o tanto que eu já tinha tecido. Realmente estava tão entusiasmada com o desenho que fui tecendo e não reparei, de início. Somente  quando dei uma parada para conferir de longe (faço isso para ter uma visão geral ) é que vi que tinha algo estranho. E tinha mesmo.

Já aconteceu outras vezes, mas esta é a primeira vez que resolvo fotografar e explicar qual a solução adotada. Porque neste momento, algumas opções se desenham, e dependendo da situação, é preciso decidir o que fazer. O mais rápido? corta tudo, amarra e começa novamente. Mas, e se o urdume estiver naquele comprimento certo para a peça? e se for aquele fio lindo que você separou só para este projeto? vai cortar e jogar fora?

Então, resolvi executar uma "cirurgia de campo aberto". Trabalhoso? sem dúvida. Mas o resultado compensa.



1. A primeira coisa a fazer é identificar o liço errado. Para isso, é preciso conferir, desde o começo, a ordem da liçagem. Lógico que isso já foi feito antes de começar, mas fica claro que comi bola. Então... se vira, minha filha...
Isole o local, separando bem os liços daquele que vc quer trocar. Para tanto, amarrei os dois lados com barbante às laterais do tear, o que me deixou com o campo bem exposto.



2. Pegue um liço avulso (eu sempre tenho) ou então faça um liço com barbante, e posicione no local onde ele deveria estar. No meu caso, o liço errado estava no quadro 4, e ele deveria estar no quadro 3. Assim, amarrei com barbante um liço nesta posição.


3. Com toda a paciência do mundo, desamarre o grupo de fios onde o  fio errado está, e puxe, vagarosamente, liberando o fio do pente. Veja na foto o fio solto e o local de onde o danadinho foi "extraído". Preste bem atenção, pois é preciso passar o fio pelo mesmo lugar depois.


4. Libere o fio do liço errado, e passe novamente, agora pelo liço correto que vc havia posicionado anteriormente.  O liço errado pode ficar solto entre os outros sem problemas.



5 .Passe o fio pelo pente, no mesmo local de antes, e traga -o para a frente.



6. Agora, vamos "suturar". Com uma agulha de tapeçaria, e seguindo o desenho do gráfico, vá passando o fio pelos fios da trama, até o fim. Faça com cuidado e atenção.



7. Pronto. Vamos finalizar a "cirurgia". Junte este fio aos outros de seu grupo, e amarre novamente.




8. Voilà! Paciente curado. Continue a tecer normalmente.


E assim, termina mais uma historinha... com final feliz!



Detalhes sobre esta e outras padronagens do mesmo grupo serão dadas no momento adequado. Por ora, deixo aqui um vislumbre da maravilha dos repassos portugueses...

Até a próxima!

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Dos repassos mineiros e sua singela beleza (2)

Feito o gráfico, era hora de decidir sobre cores e fios. Eu tinha uma idéia do que fazer,e imediatamente, imaginei um fundo marsala (um vermelho amarronzado, a cor do ano de 2015), com as flores em preto. Era tão claro em minha cabeça que montei o urdume sem nenhuma dificuldade. Rapidamente, passei para a trama, e então, comecei com umas flores achatadas. Hum...não era isso que tinha em mente, mas não desgostava. Postada a foto em minha página no Facebook, o professor Rodrigo *O tecelão rapidamente comentou que o desenho deveria fazer um quadrado perfeito, e assim, sugeriu que eu dobrasse os fios que formam as pétalas. Acatei suas orientações e então resolvi fazer uma mescla de flores maiores e menores:


Lição 1 dos repassos mineiros: SEMPRE devem mostrar um quadrado perfeito. Assim, cuidado com a trama.

Terminado o tecido, o que fazer? imaginei então uma bolsa ou carteira maior, "clutch", que está super em moda. Imaginei que seria interessante mesclar o tradicional com o mais moderno, e munida desta idéia, entre, costuras, colagens, dobraduras, montei a carteira:



E não é por nada, mas tinha ficado linda. No entanto, faltava alguma coisa, e eu então imaginei uma fita de passanamaria em torno da tampa e abertura. Essa parte deu trabalho, porque colei e depois costurei à mão, mas o resultado compensou o serviço.


Ficou muito linda. E devidamente comprada pela Círculo, parceira especial deste blog.

A parte mais importante desta aventura, no entanto, teve início no desenvolvimento do trabalho: um convite à pesquisa da origem dos repassos mineiros, feito pelo Prof. Rodrigo *O tecelão, a partir de repassos portugueses que ele ganhou há muitos anos, e que resolveu agora explorá-los.
É sabido que a tecelagem brasileira tem seu início com a colonização portuguesa, e assim, estudar os repassos portugueses é buscar as origens dos desenhos mineiros, que são únicos no mundo. Senti-me honrada e muito feliz por participar desta pesquisa, e serei eternamente grata ao Prof. por esta oportunidade. Desde que iniciamos os estudos, aprendi muito, e sinto que este é só o começo - nossas discussões a respeito dos desenhos e suas variações trazem à tona novos questionamentos, novas possibilidades, e já conseguimos identificar, nos repassos mineiros, características dos repassos portugueses. Mas este é assunto para um outro post...aguardem!

Até a próxima!


terça-feira, 21 de julho de 2015

Dos repassos mineiros e sua singela beleza (1)

Meu Deus, faz uns dois meses que não passo por aqui. Terrível, mesmo; blog abandonado, largado. Estou bem penalizada, porque todo fim de semestre é assim: pesado, cheio de notas, provas...e o próximo não vai ser melhor; aliás, mais ocupado ainda com o meu trabalho. E a tecelagem, bem...esta infelizmente ficou relegada a segundo plano. Coisas da vida...mas vou tentar me organizar...
Mas vamos lá, aproveitar o fim das férias, e falar de coisas agradáveis: meu contato (finalmente) com os repassos mineiros e a importante parceria que surgiu disso.

Há muito tempo, tenho comigo o desejo de desvendar os repassos mineiros. Como já sabem, tecelagem aprendi com os americanos: meus livros, vídeos, grupos de tecelagem no Facebook, vem todos da terrinha do tio Sam. Aparentemente, havia pouco ou quase nada de material em português, e acabei, pela facilidade da língua (para mim), e pela abundância de temas sobre o assunto na Internet, migrando para a maneira como os americanos tecem. Ao longo do tempo (e isso também já contei aqui), fui adquirindo certa quantidade de material que quase dá para abrir uma biblioteca, e assim, dominei os "twills" e "overshots", "tabby", "weave as drawn", e tantos outros termos comuns neste material. Aprendi a ler gráficos, e entender que nos EUA os quadros normalmente sobem, levantando os liços, e assim, adquiri teares que executam estes mesmos movimentos (Arte Viva teares). Dominei programas e faço gráficos com rapidez, mas ainda me falta certo conhecimento teórico sobre diferentes padronagens de uma mesma estrutura - obviamente, o livro adequado já foi comprado e só me falta tempo para sentar e estudar com calma. E, desta forma, pensando como eles, tudo fazia muito sentido.

No entanto, achava vergonhoso não tecer os repassos mineiros. Tinha conseguido muitos repassos, graças à generosidade de dois mestres tecelões brasileiros: Prof. Rodrigo *O tecelão, e prof. René Schultz. O primeiro, escaneou os repassos de um livro já esgotado faz tempo, "Tecelagem manual no Triângulo Mineiro", e postou em seu blog, que é uma fonte inesgotável de informações têxteis (https://tecelagemartesanal.wordpress.com/); o segundo, tempos depois, disponibilizou o livro inteiro em seu blog Pequeno Museu da Tecelagem (http://www.jornalnocego.blogspot.com.br/). Deste modo, eu tinha o livro, e através dele, e de outras informações, tomei coragem e fui tentar aprender a ler os repassos.

Vejam bem: uma coisa é ler um gráfico. Em 10 minutos, vc entende o racional do negócio, consegue perceber a direção  da trama, consegue identificar o "tie-up" e pronto, maneja o tear. O repasso, esse é outra história.
Pra começar, é um difícil que depois se torna bem fácil. A passagem de um estado para o outro é que se mostrou bem desafiadora para mim. Isso porque partimos de uma tira de papel com quatro linhas escritas à mão, com risquinhos espalhados ao longo destas linhas. E ISSO é tudo o que se tem; estas são as instruções para executar os lindos desenhos. E aí, eu pensava, ah, tá; e agora?
(imagem do livro "Tecelagem manual no Triângulo Mineiro")
O livro, então, me ajudou a interpretar o que eram estes risquinhos, que me lembravam partituras de música (aliás, tive Música na escola e fui péssima aluna...aff...), e então achei a liçagem com a qual estava acostumada nos gráficos, lendo da direita para a esquerda. Também entendi que como era a pedalada, cuja leitura é feita da esquerda para a direita. "Ok", pensei. "Tá fácil. Jogo no gráfico e tenho o desenho, beleza!". Hum...
No entanto, faltava uma pequena coisa: o tie-up ou amarração dos pedais. Eu precisava saber a ordem das combinações, e então, é claro que não adiantava meu conhecimento americano; aliás, tentei aplicar e o primeiro gráfico ficou ridículo. Voltei ao livro, e com paciência (essa, é a maior aliada), aprendi algumas coisas sobre teares mineiros, que tem sua origem nos teares portugueses. 
Teares mineiros tem quadros que descem, enquanto que seus opostos sobem; ou seja: se eu pisar o pedal 1, o quadro 1 vai DESCER, enquanto que o quadro 3 (seu oposto), vai SUBIR. assim, são de um sistema diferente dos teares americanos. Tinha ainda que me lembrar que a disposição da liçagem levava a um ponto tela executado em 12, 34, e não 13, 24, como eu estava acostumada. Conforme já disse, meus teares são de um sistema americano, então, o que tinha  que fazer? adaptar a leitura. "Que beleza", pensei. Mal sabia eu que esta adaptação me levaria a conhecer coisas maravilhosas...
Sentei na frente do computador, e estava decidida: ou eu aprendia aquele dia, ou largava de vez. E não aceitava a segunda opção, de jeito algum. Tinha aprendido tecelagem na raça, porque pararia ali?

Foram mais de uma hora de transformações, raciocínio, modificações. Naquele dia, eu ia fazer o gráfico do repasso Rosinha, ah, eu ia. Quando ficou pronto, eu quase chorei de emoção.

Estava decifrado. Para mim, foi a minha "Pedra da Rosetta". Já tinha feito muitos gráficos, e visto coisas maravilhosas, mas nunca a singeleza de um desenho havia me tocado tão profundamente. Simples, ao mesmo tempo intrincado, inteligente. Conseguia identificar as características dos "overshots" americanos nas flutuações repetidas, formando o desenho, e ainda assim, tinha uma coisa só dele, que eu não havia visto em nenhum outro. E percebi que era a identidade cultural, que só os nativos daqui conseguem captar. E então entendi porque os americanos são tão orgulhosos de seus "coverlets" e seus desenhos: sua cultura salta aos olhos e não deixa dúvidas de onde vieram. E assim são os repassos mineiros, que para outros povos, são somente desenhos bonitos, mas para nós, brasileiros, são a expressão mais pura da história, desde os tempos coloniais.

E a parte final desta aventura, vem em outro post!


sábado, 16 de maio de 2015

Com a ajuda de Jane Patrick (tapete em Krokbragd)

Tenho um livro de tecelagem sensacional, um dos primeiros que comprei, para teares de pente liço. Lembro-me que na época, já tinha tido contato com este tipo de tear, mas acaba por fazendo muito mais coisas nos teares de pregos, porque não estava acertando a mão na tensão - acabava me irritando porque o trabalho ia ficando solto, não estava saindo do jeito que eu queria, demorava demais...enfim, uma série de problemas que acabavam por me desanimar. E eu então acabava por voltar ao tear de pregos porque era (e é) muito mais fácil de controlar - e claro, mais limitado. Estava em um impasse. Então, lembro-me que tinha acabado de fazer a assinatura da revista americana Handwoven, e ficava babando nos trabalhos, só sonhando. Claro, teares de pedal eram como o Olimpo, para mim, na época - divinos e totalmente inalcançáveis. Mas teares de pente liço eram viáveis - eu só precisava acertar o ponto.
Entrei no site da Interwoven e achei um video, de uma tal Jane Patrick. Ela mostrava várias técnicas que podiam ser aplicadas ao tear de pente liço, e que me pareciam bem interessantes. Mais importante ainda, começavam a me animar novamente. Comprei o tal video, e tratei de assistir. Ao final de uma hora e meia, estava tão encantada, que tratei de pegar o tear e, seguindo as orientações do video, cortei a urdidura e coloquei. Rezando, comecei a tecer. E tecer. E tecer até o fim, sem atropelos ou raiva, apenas curtindo o momento. Não acreditei, e passei a achar que Jane Patrick fazia milagres.


Busquei mais coisas dela, e achei um livro, que justamente era o vídeo, com fotos, instruções, projetos, etc. Lógico, tinha que ter....de qualquer jeito. Um mês depois, lá estava eu com o livroC. Anos depois, aqui estou eu, com o livro na mão, que já vendeu nem sei quantas cópias, de tão bom que é. São muitas as informações, e várias técnicas que são ao mesmo tempo fáceis e elaboradas,e dentre elas, uma técnica escandinava chamada "Krokbragd" já tinha me chamado atenção, mas por vários motivos nunca tinha me aventurado a tentar. Até agora.
https://www.youtube.com/watch?v=JK6qz5Lu9Ns (video que achei que mostra o livro por dentro, alguém gravou e postou no YouTube)




" Krokbragd" é uma técnica de origem escandinava. Não se sabe exatamente o país onde se originou, mas alguns atribuem o surgimento da técnica na Noruega, e outros na Dinamarca. É tipicamente uma técnica de tapeçaria, onde a trama deve cobrir totalmente o urdume, e assim, bastante utilizada em tapetes, por exemplo. No entanto, nesta região, peças como cobertores também podem ser encontrados.
O mais bacana desta técnica é que é feita em 3 quadros; mais bacana ainda é o fato de que a pedalada é ainda mais fácil, pois são 3 movimentos repetidos ao longo de todo o trabalho, em uma sequência super fácil de memorizar. E aí, é possível imaginar que poucas coisas podem ser feitas, não é? pois com um pouco de criatividade, coisas como estas aqui são totalmente possíveis:


Estas imagens foram retiradas da Internet.

Veja, diferentemente do overshot que dependem da liçada e da pedalada para executar o desenho - desenhos diferentes requerem liçadas e pedaladas diferentes - o Krokbragd tem uma liçada e um tipo de pedalada para todo e qualquer desenho. O segredo é como trabalhar com as cores - e assim, a troca de cores garante o desenho desejado.
Jane Patrick ensina como fazer o Krokbragd em um tear de pente liço, com a ajuda de duas navetes auxiliares. Fácil, fácil. Tão fácil, que fiz 3 videos mostrando a técnica, uma vez que minha aventura tratava-se justamente disso.

Fiz um tapete, que para minha alegria foi vendido. Utilizei fio de algodão na urdidura e fios que imitam chenille na trama:




O desenho que fiz é bastante comum em ser encontrado em krokbragd, e faz parte do livro da Jane:





Simplesmente adorei o resultado. É demorado, pois a trama deve ser bem batida, e assim, leva muito mais tempo para chegar ao fim, mas vale a pena cada minuto.
Os detalhes podem ser conhecidos nos videos que fiz, e que estão disponíveis no YouTube:
https://www.youtube.com/watch?v=ephQsV8-O0Q
https://www.youtube.com/watch?v=sEWtoC-DjdU
https://www.youtube.com/watch?v=muBUG0RgnEk

 O passo-a-passo do tapete estará no site da Círculo em breve. Fico feliz em ter tentado, após anos com o livro (acho que comprei em 2011), e com sucesso. Mais feliz ainda de compartilhar com todos vocês meus resultados e o que aprendi, e espero poder contribuir para divulgar a arte ainda mais.

E viva Jane Patrick, por me trazer à tona quando achava que não iria conseguir. Hoje, após aquele video, sei que tudo é possível, na hora certa.

Até a próxima aventura!

domingo, 12 de abril de 2015

Tecido dobrado - e decorado! (parte 2)

E aí, começou minha preparação.
Eu já tinha feito algum treinamento em tecido dobrado, conforme já contei no post anterior. Para tanto, me utilizei de um material excelente, em inglês, da autora Jennifer Moore, e também de instruções encontradas no blog do Rodrigo "o tecelão", cheio de dicas importantes. Para quem se interessar, segue os links de do vídeo e ebook da Jennifer: http://www.interweavestore.com/doubleweave-basics-downloadhttp://www.interweavestore.com/doubleweave-ebook, bem como o blog do Rodrigo https://tecelagemartesanal.wordpress.com/receita-dos-tecidos-dobrado-e-tubular/

O material da Jennifer é mais detalhado, mostrando várias maneiras diferentes de aplicar a técnica de tecido dobrado. Dentre elas, aquela que escolhi - tecido dobrado decorado - é uma técnica desenvolvida pela artesã Clotilde Barrett nos anos 70 e que utiliza o básico da execução do tecido dobrado combinado à liçada do que chamamos overshot, o equivalente dos nossos repassos mineiros. Sem entrar em detalhes (isso fica para meu projeto futuro), o que ocorre é que a técnica elimina as flutuações do fio da trama do overshot, mantendo o desenho original. Para entendermos um pouco melhor, vou mostrar aqui o gráfico da padronagem que escolhi para este projeto, chamada de "Double charriot wheels" (rodas de carruagem), ou "Church windows" (janelas de igreja). As instruções para o gráfico tirei de um livro de Josephine Estes, tecelã americana dos anos 50 -60. As partes I e II do livro podem ser baixadas da Internet de graça: http://www.cs.arizona.edu/patterns/weaving/wtopic_overshot.html

Eis o gráfico original. Se olharmos com cuidado, verificaremos que existem regiões onde o fio da trama passa por cima de 3 ou mais fios da urdidura, o que chamamos "flutuações". Isso caracteriza a padronagem "overshot", pois ajuda a destacar o desenho formado. Tais flutuações também são verificadas nos repassos. 
São escolhidas duas cores contrastantes, uma para ser o que chamamos "background" ou cor de fundo, representando o urdume, que no nosso caso é o branco, e outra para ser o"pattern", ou a cor da trama, que aqui é o azul. Como sempre, a liçada tem uma determinada sequência, que combinada à pedalada, vai gerar o padrão mostrado. Um elemento importante, no entanto, é o que se chama de "fio de ligação", que é passado no padrão do ponto tela: 1-3, 2-4 ou 1-2, 3-4, dependendo da amarração do tear, e que serve para estabilizar o tecido, uma vez que existem muitas flutuações, que pode deixar o tecido cheio de "buracos", ou regiões onde não há cruzamento de fios 1/1. Deste modo, para tecer, usa-se uma navete com o fio da trama e outra para passar o fio de ligação, com linha na cor do urdume, normalmente. 

Muito bem. A idéia de Clotilde foi combinar as duas camadas do tecido dobrado para eliminar a necessidade do fio de ligação, uma vez que a combinação das pedaladas vai igualmente eliminar as flutuações, mantendo o desenho original, tanto no lado direito (primeira camada) quanto no "avesso", que na realidade, será o direito da segunda camada. O que ocorre é que no lado direito, veremos o desenho de uma cor, e o fundo de outro, enquanto que no avesso será o contrário. O gráfico para a "operação" é este, meio chato de fazer:



 Os detalhes virão futuramente. De maneira geral, o gráfico prevê o entrelaçamento das duas camadas, o que dobra o número de fios e faz com que o desenho se sobressaia sem a necessidade de flutuações. O mais bacana, é que todo o desenho é construído em ponto tela. Parece mágica. 

Segue fotos da criança. A cada avanço durante a execução, eu ficava mais e mais encantada e intrigada com os vários aspectos deste tipo de tecelagem. 





Para completar, gravei uns vídeos, um deles postei no meu canal do YouTube, sobre o mover das camadas:

E assim, termina mais uma aventura. A próxima? é só aguardar!

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Tecido dobrado - e decorado!

Olá, crianças! faz mais de um mês que não apareço por aqui, por várias razões, dentre as quais, a mais importante: a última aventura tomou mais tempo que o esperado, pois desta vez fiz o que NUNCA faço: lição de casa. Bom, explico.
Desde que iniciei na tecelagem, uma coisa que nunca fiz foi amostrar. Tenho infinita paciência para definir estilos e cores, mas quando se trata de preparar o tear para um tecido de amostra, que não terá outra finalidade...puxa...
Está errado, eu sei. O objetivo de qualquer processo de amostragem é justamente mostrar, ou trazer o mais próximo possível do real o resultado que se espera ao final do processo, portanto, o tecido de amostra É útil, com finalidade e eficácia comprovadas - ação lógica e que deve ser prática constante. Um vez li em um artigo, já não me lembro onde, que muitos praticantes de tecelagem não fazem amostras, pois tem pressa e ansiedade de dar àquele pedaço de pano um destino, vida. E aí, tendem a cometer erros em peças maiores, que poderiam ter sido evitados se somente um tempo tivesse sido disponibilizado para amostrar. Imaginem se não me encaixei neste grupo...como uma luva...
Mas voltemos à aventura, que começou com uma semente germinando na minha cabeça, como sempre, alimentada por fotos maravilhosas dos trabalhos de minhas amigas do grupo do Facebook 4-shaft Weaving (https://www.facebook.com/groups/4shaftweaving/), além do "tudo de bom" site da Interweave editora (www.weavingtoday.com), que chamo carinhosamente de paraíso e perdição: paraíso para os olhos e perdição para o cartão de crédito...rs...

 "Doubleweave" ou tecido dobrado, é uma técnica bastante difundida nos EUA, e obviamente na Europa, também conhecida aqui no Brasil,  voltada inicialmente para aumentar em 1x a largura de um tecido que está sendo tecido. Assim, se você tem um tear de largura limitada, como eu, por exemplo, fica difícil tecer  toalhas de mesa ou colchas, porque são peças que requerem uma largura de pelo menos 1,50 m (meu tear tem 1 m de largura, e quando o tecido encolher, será menos do que isso). É claro que neste caso, é totalmente possível tecer dois painéis e uni-los, por costura à maquina, ou à mão, ou outra técnica decorativa, e da mesma maneira, podemos ter peças grandes tecidas em teares pequenos, sem dúvida. Mas, se houver algum jeito de fazer uma peça de uma vez só, por que não?A idéia, tão simples quanto brilhante, é fazer com que seus 4 quadros trabalhem de modo a produzirem duas camadas de tecido, ao invés da única normalmente obtida.

Para o ponto tela, o mais básico de todos, tudo o que precisamos é fios verticais ímpares e pares alternados pela passagem do fio horizontal, conhecido como trama. Deste modo, levantamos fios ímpares, passamos o fio horizontal, batemos o pente; depois, levantamos fios pares, passamos o fio horizontal novamente, batemos o pente, e deste modo alternado, construimos o que se chama tela, que pode ser reproduzido em qualquer tipo de tear, desde os mais simples até mais complexos. Para um tear de 2 quadros, pente liço ou pregos, o gráfico básico seria assim:
 O primeiro movimento levanta todos os fios impares, e o segundo, todos os fios pares. Alterne estes movimentos, e voilà! temos ponto tela, certo?
Para
Para um tear de 4 quadros, teríamos, um gráfico como o de cima. Se dividíssemos este  gráfico em dois, teríamos a mesma coisa do primeiro. Assim, em um tear de 4 quadros, podemos ter duas camadas de ponto tela sendo executadas ao mesmo tempo: uma camada para os quadros 1 e 2 e outra camada, para os quadros 3 e 4. Não vou aqui entrar em detalhes sobre a ordem da pedalada ou "tie-up", pois tais informações vão fazer parte de um novo projeto em desenvolvimento, mas é possível, por este método, executar duas camadas de uma vez, ligada por um lado - e então temos o dobro da largura assim que retirarmos o tecido do tear e o abrirmos.
Se produzirmos duas camadas ligadas por ambos os lados, um tubo será feito, e então este tecido é conhecido como tubular, útil para bolsas, mangas, gorros, etc

Outra função do tecido dobrado está na formação de um tecido com o dobro da densidade que teria normalmente. Neste caso, temos a intercalação das 4 camadas para a execução de uma mais grossa. Muito útil para  tapetes, trilhos de mesa e outras peças que requerem tecidos mais reforçados.

É possível também, e esta foi a técnica que usei, que determinadas padronagens, tais como os repassos, possam ser reproduzidas em tecido dobrado, em duas cores bem distintas, o que forma ao mesmo tempo um tecido grosso e de duas faces. Chamada em inglês de "patterned doubleweave", ou tecido dobrado decorado, chama a atenção por reproduzir em ponto tela desenhos que normalmente apresentam muitos fios flutuantes, característica dos repassos, que chamamos em inglês de overshot. Tal técnica, escolhida por mim para esta nova aventura, é trabalhosa e cheia de detalhes. Foi difícil entender as passagens, e é preciso atenção redobrada, mas o resultado vale a pena mil vezes. Assim, fica fácil entender que primeiro passei alguns dias treinando o básico do tecido dobrado:



Após um pequeno drama para organizar os fios pelo pente (são 4/fenda), iniciei a amostra trabalhando com as 4 camadas juntas (parte listrada). Depois, comecei a separar as cores, e parecia um pequeno milagre ver as camadas separadas - branco em cima, azul embaixo.

Passei então para executar alguns desenhos simples, para entender como as camadas podiam se misturar. Com a ajuda de uma navete ou régua, pode-se fazer um xadrez perfeito (cores totamente separadas)
ou aplicar alguns efeitos simples:

Quando achei que já estava mais segura, cortei o trabalho e retirei do tear. Guardei a amostra, e me preparei para iniciar a maior aventura "tecelística" de minha vida...Que vem no próximo post!