segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Perseverança, paciência e dois dedos de coragem

Este trabalho começou como tantos outros. Escolha da padronagem, seleção de fios e cores, corte dos fios, colocação dos fios no pente, do pente nos liços, arrumar a tensão, e  finalmente começar. Até aí, nada de novo, e como sempre, o processo, embora seja feito das mesmas etapas presentes em tantos outras peças, acaba trazendo peculiaridades daquela combinação de fios em si, ou seja, posso tecer mil vezes a mesma padronagem, mas terei, com certeza, mil processos diferentes. Sob o olhar de quem vê a peça terminada, pode ser igual a tantas outras: mesma trama, muitas vezes as mesmas cores. Mas para quem tece, cada combinação traz embutida dentro dela todos as horas, dias, com suas alegrias e angústias contidas em cada duíte, e deste modo, cada peça é única.

E assim começa a história deste overshot, cuja padronagem se chama Cruz de Malta.












































Minha idéia original era tecer uma peça larga o suficiente para cobrir o tampo da minha mesa da sala de jantar. Meu tear de pedal tem somente 1 metro, o que não é suficiente para a largura de uma toalha de mesa, por exemplo. Como ainda não domino a técnica de "tecido dobrado" (os 4 quadros trabalham para fazer duas camadas de tecido, que são unidas por uma das laterais, e quando o tecido é retirado do tear, está literalmente dobrado ao meio no sentido do comprimento. Mas voltarei a esta conversa no futuro...), resolvi tecer o máximo da largura que pudesse, e depois acrescentaria algum barrado em crochê, por exemplo.
Escolhi o desenho. Muitos detalhes, intrincados e interessantíssimos. Já tinha tecido overshot antes, e não havia novidade até aí. Mas como já falei, cada processo é único. Passei ao computador, e montei o gráfico de acordo com as instruções de minha apostila.


O primeiro problema: meu número de liços. Tenho 500 liços separados em 4 quadros. Para um desenho uniforme, eu precisava contar direitinho quantos liços precisaria para a largura desejada. E descobri, para minha tristeza, que não teria o número suficiente (longo suspiro...). Trabalhar com fios finos e padronagens complexas requer sempre um alto número total de liços, e quanto mais largo o trabalho, maior é este valor. Para o que desejava, faltavam coisa de uns...50 liços!!!!! frustrante é a palavra mais leve... (nem preciso dizer que tal sentimento me levou, durante o processo, a comprar mais 500 liços...e agora eu quero ver!).
Bem, e agora...recalcular. Diminuí o número de liços a 411, para centralizar o desenho e, agora, já que a idéia da toalha estava fora de cogitação, economizar na urdidura (afinal, mais de 400 cabos de 2,5 m não são brincadeira). Sem saber exatamente quais seriam meus planos, tratei de cortar, urdir e preparar o tear para iniciar a trama, pois estava doida para ver o desenho surgir:


Animada, continuei a trama, ainda sem muitas idéias. Um trilho de mesa largo surgiu em minha mente, e já comecei imaginar o tratamento da franja e outros detalhes. No entanto, logo após os primeiros 30 ou 40 cm, comecei a perceber que a tensão dos fios da urdidura não conseguia se manter após duas ou três batidas do pente, o que começou a fazer com que houvesse uma diminuição da largura, como se os lados estivessem sendo levados para dentro (em inglês chamamos de draw-in). Um pouco é esperado mesmo, mas estava perdendo largura demais, e então o 2° problema começava: o que fazer?
Com paciência, consegui verificar que o problema estava no freio do tear, e com alguns fios e um pouco de criatividade, consegui fazer com que a tensão voltasse ao normal. Mas a parte do tecido já feita apresentava uma diferença na largura que não poderia ser resolvida, a menos que desmanchasse tudo ou cortasse e amarrasse de novo. Sinceramente? não estava a fim nem de uma coisa nem de outra. E então, mais uma vez, deixei a ideia do trilho de lado e continuei a tecer, agora, somente um tecido a ser utilizado em alguma coisa que não sabia bem o quê. Estava gostando tanto do desenho que simplesmente não tive coragem de me desfazer de qualquer parte.


Quanto mais eu tecia, mais eu gostava. Adorava ver surgir as tais "cruzes maltesas" surgirem, como mágica. E, deste modo, semanas se passaram (sim, sou lenta para tecer; muitas coisas para fazer, e um milhão de interrupções ao longo do dia...). Ficava tentando imaginar o que fazer com um tecido tão bonito, mas com problemas evidentes nas laterais. Então, uma idéia surgiu em minha mente e começou a tomar corpo: poderia cortar o tecido e fazer capas para almofadas! o caso era: nunca tinha feito isso antes, e se errasse, não teria outra chance: o tecido estaria perdido. Mas, valia o risco, pois se ficasse como eu imaginava, ficariam lindíssimas. E munida de coragem, parti para a finalização da trama e lavagem do tecido.

























Planos e muitas elaborações depois, parti para a ação. Tesoura nele, sem pena!

Alguns dias, e muitas costuras depois, com direito a tassels de cordão de cetim em macramé (feitos por mim), eis a obra acabada:

Pela quantidade de tecido que tinha, ou fazia uma almofada face dupla, ou duas face simples. Escolhi a segunda opção, e aí fiz um parzinho, com foto chique e tudo:

E assim, termina mais uma aventura! A próxima? em breve, espero!

Um comentário:

  1. Olá Claudia, estou curiosa, qual a sua formula para calcular o seu urdume e a sua trama? seu tear tem rolo traseiro dividido por seções? E que eu estou com um desses agora, e estou tomando uma surra com isso das seções, não preciso mais de urdideira no caso deste tipo de tear.

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