quarta-feira, 14 de maio de 2014

It´s Overshot, baby!

"Overshot" é o nome de uma estrutura em tecelagem, que produz um tipo de tecido com relevo marcante, uma vez que sua característica é passar o fio da trama por cima de vários fios da urdidura. Tal movimento produz um tipo de desenho, que combinado à cores e tipos de fios, fica bastante evidente. Esta estrutura é a base dos famosos repassos mineiros, que em breve será tema de alguns posts aqui.
Bem, para meu primeiro "overshot", escolhi um desenho do livro de Marguerite Davison "A Handweaver Pattern´s Book", para a confecção de um cachecol, e para evidenciar bem  o relevo, resolvi trabalhar com fio bouclé na trama, e fio liso na urdidura. Montei o gráfico esperado do que pretendia fazer:


Aqui está representada a sequência da urdidura passada pelos quatro quadros de liços (horizontal, em cima), e a sequência a seguir da trama (vertical, lado direito), que deve ser lida de cima para baixo. A sequência de pedaladas está representada no quadro de bolas à direita em cima. Cada passada do fio da trama deve ser repetida na mesma pedalada em um certo número de vezes, de acordo com o esquema abaixo:
"Plain weave" quer dizer ponto tela, e está representado pela sequência 1/3 e 2/4. Para tecer em overshot, deve-se ter duas navetes, uma com o fio que vai tecer o relevo, e outra com um fio liso mais fino, na maioria das vezes o mesmo da urdidura, para servir como "fio de ligação" entre uma passada e outra do fio do relevo. Este fio de ligação é necessário para que a estrutura não fique instável e acabe com buracos ao longo do trabalho. Para passar o fio de ligação, deve-se tecê-lo em ponto tela, o que normalmente é feito nas posições 1/3 e 2/4 (pedais 1 e 3 juntos) (pedais 2 e 4 juntos). 
O fio do relevo, que no meu caso foi o fio bouclé, foi passado de acordo com a sequência acima:  3 vezes na posição 4/3, 3 vezes na posição 3/2, e assim por diante. A cada 1/2 duíte, foi passado o fio de ligação.
Deste modo, para facilitar o entendimento: O trabalho começa com dois pedais ou alavancas acionados (3 e 4); faz-se a primeira passada do fio do relevo. Os pedais ou alavancas são trocados para 1 e 3; passa-se o fio de ligação. Volte para a posição 3/4 novamente e passe o fio do relevo; troque a posição dos pedais para 2/4, e passe o fio de ligação; volte para a posição 3/4 e passe mais uma vez o fio do relevo; volte para 1/3 novamente e passe o fio de ligação. Continue a seguir o gráfico, sempre alternando fios de ligação com fio do relevo.

E agora, o resultado:






A peça ficou super macia, e bem quente. O resultado superou minhas expectativas, mesmo. E agora, preparar-me para o próximo...
Ah, sim: meu lindo tear de pedal chegou!!!!!



domingo, 11 de maio de 2014

Desafio das três cores (parte final)

Cheguei ao fim do desafio, tendo tecido dois jogos americanos na mesma urdidura. Até então, tinha um desenho definido, e eu já sabia como daria o acabamento nas bordas: ponto correntinha em zig-zag, com fio de malha na cor azul. Simples e simpático.

 




                O que esqueci, no entanto, foi de fazer uma coisa simples e fundamental na tecelagem: olhar o avesso. E quando o fiz, encantei-me, como sempre.



De um lado, padrão de janelinhas, e de outro, padrão de correntes  ou parecido. Impossível ficar indiferente, e considerar este desenho apenas o avesso. Precisava aproveitar isso de alguma maneira, e assim, passei os fios de sobra para o outro lado (aquele que seria o direito), e tornei este o lado direito. Como haviam dois jogos, achei que seria bem bacana deixar um no "direito" e outro no "avesso", fazendo uma composição divertida.






E deste modo, seguirão felizes para a terrinha do Tio Sam...ficaram pequenos, até, suficientes para o prato e talheres, sem folga para o copo. Mas, simpáticos como são, vão assim mesmo, e tenho certeza, vão agradar!

Lição aprendida: avesso é só uma palavra em tecelagem. Muitas vezes, não há avesso, somente outra possibilidade, tão bacana quanto a idéia original (ás vezes até mais...)

quinta-feira, 1 de maio de 2014

Desafio das três cores

Durante o mês de abril, promovi um certo "rebuliço" em meu ateliê, ao decidir por comprar aquele que tenho chamado de "derradeiro" tear: um Arte Viva modelo Catarina 4 pedais, 1 m de largura. Após um vai-e-vem de negociações frustradas, eis que finalmente fechei negócio e estou na espera da belezinha, que se Deus quiser, ocorrerá na semana que vem. Assim, me vi entre organizar tudo e arrumar espaço, e vender alguns teares que já não teriam mais lugar na minha vida,e deste modo, fechei o mês com quase todos vendidos, pronta para receber a Anastasia (meu novo tear de 4 quadros - sim, dou nomes femininos aos meus teares). E, no meio de tudo isso, trabalhos em andamento porque ninguém é de ferro, e preciso relaxar...kkkk...
Bem, no momento, tenho dois, um dos quais  vou falar em um próximo post, e outro que iniciei ontem, e que finalmente justifica o título. Minha amiga Kali Mason, dos Estados Unidos, propôs ao grupo de artesanato do qual ela faz parte em sua cidade, que cada pessoa do grupo fizesse uma peça com três cores aleatórias. Assim, um conjunto de lápis de cor foi colocado em uma caixa, e de olhos fechados, cada uma deveria retirar três lápis, e assim, elaborar uma peça com as cores sorteadas. Ao postar a foto das cores que ela havia ganhado, Kali despertou uma verdadeira avalanche de comentários e pedidos de participação, e o que seria apenas para o grupo,  tornou-se um evento internacional, pois eu logo quis participar da brincadeira. Permitido meu ingresso, parti para o sorteio, e munida de alguns lápis de cor que encontrei em casa (sabe, aqui não tem mais criança...), cheguei às minhas três cores:

 

E aí, o que fazer? eu sabia que iria usar meu tear de pente liço pequeno, e fiquei pensando, até que fuçando no meio da bagunça, achei barbantes nas cores que precisava. E o que combina com barbante? fio de malha naturalmente. E não é que eu tinha também? (novidade...)

Quis elaborar um desenho simples, para jogos americanos, que são rápidos e divertidos de fazer. E assim, pensei na técnica de pick-up, que já citei aqui em posts anteriores. Pick-up nada mais é do que o movimento de erguer determinados fios com a ajuda de uma navete ou régua. Este movimento pode ser feito na frente do pente, duíte a duíte, ou se por acaso o movimento for o mesmo para todo o trabalho, como é o meu caso, coloca-se a régua passando por baixo dos fios escolhidos, atrás do pente. Ali, posiciona-se o mais longe possível do pente, se caso somente o ponto tela for aplicado no momento; quando se quer erguer alguns fios já escolhidos, basta trazer a régua para frente e encostar no pente, e pronto, os fios ficam erguidos. Vale lembrar que somente os fios das fendas podem ser erguidos desta maneira; não há como erguer os fios dos orifícios.


Esta foto mostra a minha navete, já posicionada embaixo dos fios que escolhi, longe do pente. Quando necessário, eu deslizo a navete para a frente, até encostar no fio.


Montei um gráfico que mostra, de maneira simples,  o padrão que está sendo tecido:


Como estou usando um tear de pente liço, vale explicar o que ocorre aqui. Os números indicam os fios que passam pelo pente, onde 1 são os fios que passam pela fenda; 2, os fios que passam pelos orifícios, e a posição 3 representa os fios das fendas que serão erguidos pela navete. No caso, os fios estão sendo alternados, e assim, da direita para a esquerda, ergui o 2°, o 4°, o 6° e assim por diante, sempre levando em consideração apenas os fios das fendas. 
No lado esquerdo, vemos a sequência de movimentos que produzem o desenho, onde cada quadradinho preto indica o que deve ser feito em cada 1/2 duíte ou "carreira" . Assim, fazendo a leitura de cima para baixo, vemos que o 1° movimento deve ser o 2, ou seja, pente em cima; o 2° movimento, deve ser 1 e 3, ou seja, pente embaixo para subir todos os fios das fendas; o 3° movimento, 2 de novo, ou seja, pente em cima; 4° movimento, 1 e 3 - pente embaixo. O 5° movimento  deve ser 2 e 3, ou seja, o pente deve estar em cima, erguendo os fios dos orifícios, e também alguns fios das fendas, e para isso, trago a navete para a frente, e assim por diante.   O resultado deste movimento, combinado à sequência de cores, levam a este padrão de "janelinhas". 


Na urdidura, usei duas cores de barbante juntas, amarelo e azul, n° 4, enquanto que o fio nos orifícios são  barbante magenta n° 8. Para a trama, fio de malha nos mesmos tons, produzindo um resultado bem vistoso e interessante.

E então, gostaria de participar deste desafio? somente 3 cores, totalmente aleatórias! Vamos lá!